O americano David Duda, de 62 anos, e a chinesa Hong Liang, de 57, vivem uma história de amor pouco comum em New Haven. Casados há três anos, eles não compartilham um idioma em comum: ele fala inglês, ela mandarim. Para se comunicar no dia a dia, dependem quase exclusivamente de um aplicativo de tradução da Microsoft, o Translator.
A tecnologia é tão essencial para o casal que eles carregam oito baterias externas para os celulares. Se os aparelhos descarregam, a conversa simplesmente para.
Segundo Duda, a comunicação exige atenção total. Um fala enquanto o outro lê a tradução na tela, como se fossem legendas em tempo real. Piadas precisam esperar alguns segundos até serem compreendidas, e conversas rápidas ou à distância não funcionam.
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“Você precisa estar presente o tempo todo. Tem que ouvir e ler ao mesmo tempo. Isso acaba sendo algo positivo para o relacionamento”, afirma Duda.
Apesar das limitações da tradução automática, Liang diz que se sente cuidada pelo marido. “Ele presta atenção em todos os detalhes e sabe do que eu preciso”, relatou, com ajuda de um intérprete humano.
Especialistas apontam que, embora imperfeita, a tecnologia ampliou drasticamente a possibilidade de comunicação entre pessoas de culturas diferentes. Para Lera Boroditsky, professora de ciência cognitiva da Universidade da Califórnia em San Diego, esse avanço permite conexões que antes seriam praticamente impossíveis.
Já Per Urlaub, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, destaca que aplicativos ainda falham em metáforas, humor e referências culturais, mas são suficientes para manter relações reais. “A tecnologia está tornando a intimidade possível em condições nas quais ela não existiria”, afirmou.
Duda e Liang se conheceram em 2019, em Xian, na China, quando ela foi apresentada a ele por amigos. Após o retorno de Duda aos Estados Unidos, os dois mantiveram contato por mensagens, usando tradutores. Durante a pandemia, passaram anos conversando diariamente por telefone, aprofundando o vínculo.
Em 2022, Liang viajou para os EUA com passagem só de ida. Duda a recebeu no aeroporto segurando uma placa escrita em chinês: “Amor da minha vida”. Pouco tempo depois, ela adoeceu com Covid, e Duda permaneceu ao lado dela durante toda a recuperação — gesto que, segundo Liang, fortaleceu ainda mais o relacionamento.
Dois meses depois, ele a pediu em casamento durante um jantar em família. Liang não entendeu as palavras, mas compreendeu o gesto. Eles se casaram um mês depois. Hoje, levam uma vida comum: saem para jantar, pedalam, caminham na praia e assistem séries com legendas em chinês. Em três anos de casamento, dizem não ter tido nenhuma discussão séria — algo que Duda atribui, em parte, à dificuldade de discutir rapidamente usando aplicativos.
“Talvez a melhor forma de ter um casamento duradouro seja falar línguas diferentes”, brinca. Mesmo conscientes das falhas da tradução automática, eles aprenderam a lidar com os erros usando gestos, imagens e paciência. Para o casal, o mais importante é o afeto.
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Apesar de ainda conhecerem apenas cerca de 200 palavras no idioma um do outro, Duda tenta aprender mandarim básico, enquanto Liang estuda inglês. Ambos reconhecem que a tecnologia não é perfeita — mas foi suficiente para unir duas pessoas de mundos completamente diferentes.