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Catimba, malandragem e o tempero que mantém o futebol vivo
Foto: Divulgação

No limite entre o antidesportivo e o folclórico, a provocação segue sendo parte inseparável do jogo.

A discussão da semana no futebol brasileiro nasceu de um lance improvável. Em clássico do Campeonato Paulista disputado na Neo Química Arena, o holandês Memphis Depay escorregou ao cobrar um pênalti e mandou a bola para fora, ajudando a selar o triunfo do Palmeiras por 1 a 0 sobre o Corinthians.

 

O erro, constrangedor por si só, ganhou contornos de polêmica quando surgiu a suspeita de que Andreas Pereira teria raspado a marca do pênalti segundos antes da cobrança. A atitude passou despercebida pela arbitragem, mas bastou o escorregão para que parte da torcida e da imprensa reagisse com indignação. O jornalista Marcelo Bechler classificou o gesto como trapaça.

 

Há quem discorde e com razão. O episódio se encaixa no vasto repertório da chamada catimba: uma tradição tão antiga no futebol quanto o apito do árbitro ou a cor verde da grama. Em jogos tensos, especialmente clássicos, o duelo não se restringe à técnica e à tática; ele também acontece no campo emocional. Desestabilizar o adversário faz parte do jogo psicológico.

 

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O futebol sempre conviveu com provocações, pequenas afrontas e atitudes que flertam com a linha do antidesportivo. Nada disso é novidade apenas mais um capítulo de uma cultura que transforma o esporte em espetáculo. Se a arbitragem tivesse flagrado o gesto de Andreas, provavelmente seria cartão amarelo por conduta antidesportiva. E só. Não é fraude, é malandragem.

 

Essa dimensão irreverente do futebol é justamente o que o diferencia de esportes mais formais. Vale provocar, desde que não haja racismo, xenofobia ou qualquer forma de discriminação. Vale comemorar chutando a bandeirinha, pressionar o árbitro ou recorrer a truques inusitados como fazia Kerlon ao conduzir a bola com a cabeça quando defendia o Cruzeiro anos atrás.

 

Curiosamente, o próprio Memphis já protagonizou momentos de deboche ao subir na bola em outra final paulista. Na ocasião, muitos vibraram com a ousadia. Agora, após o escorregão, a narrativa muda. Se o pênalti tivesse entrado, dificilmente alguém estaria discutindo o estado da marca da cal.

 

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Transformar Andreas em vilão parece exagero. O futebol, por vezes previsível e burocrático, ainda precisa desse toque de irreverência. Um pouco de tensão, provocação e drama desde que dentro dos limites é o que mantém o jogo humano, imprevisível e, acima de tudo, divertido. 

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