Alta do cacau no mercado internacional pressiona preços e muda estratégia da indústria para evitar queda nas vendas
O preço do chocolate acumulou alta de 24,77% nos últimos 12 meses, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O aumento supera a inflação média do período e coloca o produto entre os alimentos que mais pesaram no orçamento do consumidor.
A elevação ocorre às vésperas da Páscoa de 2026, marcada para 5 de abril, quando tradicionalmente cresce a demanda por ovos de chocolate e outros itens sazonais.
O principal fator por trás do encarecimento é o aumento expressivo no preço do cacau no mercado global. Problemas climáticos, doenças nas lavouras e entraves comerciais afetaram especialmente os maiores produtores mundiais: Costa do Marfim e Gana.
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ENTRE OS FATORES QUE IMPULSIONARAM A CRISE ESTÃO:
Estoques acumulados por exportadores com preços internos acima dos valores globais;
Clima instável e pragas nas plantações;
Dificuldades financeiras enfrentadas por produtores e compradores;
Volatilidade do mercado, mesmo diante de previsão de safras mais robustas.
Em 2025, o Brasil importou 42.143 toneladas de amêndoas de cacau e 42.844 toneladas de derivados, enquanto exportou 52.951 toneladas de derivados da fruta. A escassez global elevou os custos da matéria-prima e impactou diretamente a indústria nacional.
Segundo o professor de economia de alimentos da Strong Business School, Valter Palmieri Jr., o mercado internacional já dá sinais de acomodação após cerca de dois anos de forte alta. No entanto, o impacto para o consumidor tende a ocorrer com atraso.
“Grandes indústrias trabalham com contratos futuros e compras antecipadas de insumos. Isso retarda tanto o repasse dasaltas quanto das quedas. Assim, eventuais recuos recentes dificilmente terão efeito relevante na Páscoa imediata”, explica.
ESTRATÉGIA ANTECIPADA PARA A PÁSCOA
Neste ano, os ovos de Páscoa começaram a aparecer nas prateleiras ainda em janeiro, movimento considerado atípico. Para especialistas, a antecipação é uma estratégia para diluir o impacto psicológico dos preços elevados e ampliar o período de vendas.
Ao estender a exposição dos produtos, as empresas buscam:
Dar mais tempo para o planejamento financeiro do consumidor;
Reduzir risco de encalhe;
Melhorar a gestão de estoques em cenário de demanda mais sensível ao preço.
CONSUMIDOR DEVE SENTIR NO BOLSO
Produtos com maior teor de cacau e padrão premium tendem a sofrer reajustes mais intensos. Para amenizar o impacto, fabricantes podem adotar estratégias como:
Redução de peso das embalagens;
Ajustes no mix de produtos;
Promoções e versões mais acessíveis.
Diante dos preços mais altos, o consumidor pode optar por comprar menos, migrar para marcas mais baratas ou até substituir os tradicionais ovos de Páscoa por outros tipos de presente.
EXPECTATIVA DA INDÚSTRIA
De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab), a produção de itens de Páscoa começa em agosto do ano anterior. Em 2025, foram fabricadas 806 mil toneladas de chocolate e 45 milhões de ovos de Páscoa.
A entidade afirma que, apesar da alta nos custos, a estabilidade econômica e o baixo desemprego podem sustentar um desempenho semelhante ou até superior ao do ano passado.
Mesmo com incertezas no mercado internacional do cacau, a expectativa é de que a tradição da Páscoa permaneça forte no Brasil ainda que com preços mais elevados nas gôndolas.