*Por Antônio Zacarias - Quando a política perde qualquer pudor, o marketing entra vestido de “respeito cultural”. Foi exatamente isso que lideranças indígenas denunciaram ao ver Maria Enxofre do Carmo, pré-candidata ao Governo do Amazonas pelo PL, desfilando de cocar em aldeias como se estivesse num ensaio fotográfico de campanha — e não em territórios sagrados, marcados por história, dor e resistência.
A cena não causou indignação por acaso. O cocar não é adereço, não é figurino, não é acessório para postagem em rede social. É símbolo ancestral, espiritual, coletivo. Usá-lo sem pertencimento, sem autorização e, pior, com fins eleitorais, ultrapassa o ridículo e entra no campo do desrespeito explícito.
O gesto expõe o que lideranças indígenas classificam, sem rodeios, como “política de fachada”: visitas relâmpago, discursos genéricos, fotos ensaiadas e nenhum compromisso duradouro. A velha prática de aparecer em época de eleição, posar de sensível à causa indígena e desaparecer assim que as urnas se fecham.
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Não se trata apenas de imagem. Trata-se de padrão. O mesmo padrão que ignora saúde indígena precária, educação diferenciada sucateada, invasões de territórios, ausência de consulta prévia e abandono histórico. Esses temas nunca ganham espaço quando o que importa é o enquadramento da câmera e o alcance da publicação.
Ao instrumentalizar um símbolo sagrado para autopromoção, Maria do Carmo não apenas erra politicamente — ela escancara a lógica colonial ainda presente em parte da classe política: a de que territórios indígenas são palcos e seus símbolos, objetos decorativos disponíveis ao uso de quem busca votos.
Não surpreende que comunidades tenham passado a restringir ou proibir a entrada de políticos em suas aldeias. É um mecanismo de defesa contra a encenação recorrente de quem chega prometendo “escuta” e sai deixando apenas rastros de oportunismo.
Respeito não se demonstra com cocar na cabeça e sorriso ensaiado. Respeito se constrói com consulta livre, prévia e informada. Com presença contínua. Com compromisso público. Com políticas concretas. Todo o resto é marketing barato — e, nesse caso, ofensivo.
No Amazonas real, símbolo ancestral não é fantasia eleitoral. E aldeia não é cenário de campanha.
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*Antônio Zacarias é fundador e proprietário do PORTAL DO ZACARIAS, atualmente no top 10 dos portais de notícias mais acessados do Brasil. Jornalista experiente, foi editor-geral de diversos jornais da Região Norte, com atuação destacada no Amazonas, onde dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério. Durante dois anos, atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte, a convite de Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral de O Globo. Antônio Zacarias é também autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra voltada à valorização do bom uso da língua portuguesa.