Projeto social transforma esporte em ferramenta de autonomia, educação e resistência para adolescentes indianas
Em uma noite abafada na aldeia de Padampura, no estado de Rajastão, a jovem Nisha Vaishnav, então com 14 anos, treinava futebol ao lado da irmã, Munna, quando percebeu que estava sendo fotografada por cinco adultos. Logo soube o motivo: tratava-se da família de um rapaz interessado em escolhê-la como esposa.
Na Índia, a lei proíbe o casamento de meninas menores de 18 anos e de meninos com menos de 21. Ainda assim, a prática permanece enraizada em diversas regiões. Dados do UNICEF apontam que cerca de 25% das mulheres indianas se casaram antes da idade legal embora o índice tenha caído significativamente desde os anos 1990, quando chegava a aproximadamente 66%.
No Rajastão, onde os números superam a média nacional, muitas adolescentes não conseguem contestar decisões familiares. Nisha fez diferente: recusou-se a cumprir o gesto tradicional de respeito diante dos pretendentes e afirmou que não se casaria. Seu objetivo era outro continuar jogando futebol.
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A virada na vida das irmãs começou com o programa Football for Freedom, iniciativa ligada ao grupo de direitos das mulheres Mahila Jan Adhikar Samiti. Desde 2016, o projeto já alcançou cerca de 800 meninas em 13 aldeias do estado.
A proposta vai além do esporte. Ao treinar, as adolescentes também aprendem sobre seus direitos, saúde e oportunidades profissionais. Segundo a coordenação do programa, o futebol funciona como porta de entrada para fortalecer autoestima e capacidade de decisão.
Munna foi uma das pioneiras na comunidade. Enfrentou críticas por usar shorts nos treinos algo considerado inadequado em um contexto onde mulheres casadas cobrem o rosto em público. Nos primeiros dias, ouviu comentários e foi alvo de olhares reprovadores. Persistiu.
A realidade familiar também reflete a complexidade do problema. A irmã mais velha das jovens se casou aos 16 anos. A mãe delas, Laali, também foi noiva ainda criança e admite ter receio de que as filhas “sofram más influências” se permanecerem solteiras por muito tempo.
Embora reconheça que o casamento infantil é ilegal, ela explica que cerimônias costumam ser realizadas discretamente para evitar fiscalização. Pela lei indiana, pais, responsáveis e celebrantes podem ser condenados a até dois anos de prisão e multa. Na prática, porém, autoridades relatam dificuldade em obter denúncias e provas.
Os números oficiais mostram aumento nas notificações de casos reflexo de maior conscientização, mas ainda representam uma fração das cerca de 1,5 milhão de meninas que se casam anualmente no país, segundo estimativas internacionais.
Hoje com 15 anos, Nisha integra a seleção estadual e sonha vestir a camisa da seleção nacional. Caso não alcance o futebol profissional, planeja disputar uma vaga no setor público alguns estados reservam cargos para atletas que competem em nível estadual ou superior.
Munna, agora com 19 anos, também resiste à pressão por um casamento arranjado. Estuda na universidade e ajuda a treinar novas meninas no projeto. Quer se tornar professora de educação física caminho que, para ela, representa independência financeira e liberdade de escolha.
Para as duas irmãs, o futebol deixou de ser apenas um jogo. Tornou-se instrumento de voz, resistência e futuro.
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“Não há namorado esperando no treino”, respondeu Nisha certa vez ao pai. “Meu amor é o futebol.”