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Coronavírus
17/10/2020

Coronavírus avança em comunidades indígenas: faltam até caixões

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Foto: Reprodução

Ministério da Saúde aponta que mais de 30,7 mil indígenas já tiveram contato com a Covid-19 e mais de 460 morreram após contrair a doença

Lideranças indígenas de comunidades do Maranhão desembarcaram nesta semana em Brasília em busca de socorro das autoridades brasileiras para o combate à pandemia do novo coronavírus nas aldeias. Em medida desesperada, os representantes dos povos Guajajara tentam apoio do governo para conter o avanço da Covid-19 na região.

 

A reportagem conversou com os indígenas que clamam por ajuda do Ministério da Saúde. Os relatos dão conta de problemas como falta de medicamentos, remédios vencidos, má distribuição de recursos e de equipamentos de proteção individuais (EPIs). Além disso, os representantes denunciam baixo efetivo de profissionais para o atendimento da população.

 

Em alguns lugares, falta caixão para enterrar as vítimas do novo vírus.

 

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De acordo com boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), até essa sexta-feira (16/10), 30.745 indígenas foram infectados pelo novo coronavírus. Desde que a pandemia se instalou nas aldeias, 462 índios morreram pela Covid-19.

 

As comunidades indígenas maranhenses estão entre as mais atingidas pela pandemia: foram 1.533 casos e 27 mortes por Covid-19. O estado de Mato Grosso do Sul lidera as tristes estatísticas, com 60 óbitos e mais de 2,4 mil casos.

 

“Nossos parentes estão morrendo”


Ao Metrópoles, o presidente do Conselho Supremo dos Caciques Guajajara, Raimundo Carlos da Silva Guajajara, afirmou que o cenário atual nas comunidades indígenas é o de “abandono”. “Estamos sem medicamento, sem atendimento e ficam se promovendo, dizendo que estão cuidando da gente. Eles recebem repasses bilionários, mas não há investimento em nós. Nossos parentes estão morrendo”, critica.

 

O representante narra que entre as vítimas da doença nas comunidades indígenas está seu pai. “Perdi meu pai para essa pandemia e nunca nem pagaram um caixão para ele. Não vi meu pai ser enterrado, foi levado do hospital direto para o cemitério. A pandemia está avançando, está matando nossos parentes.”

 

Raimundo é uma das lideranças da Aldeia Belo Sonho Buritirana, na região do Bananal, no Maranhão. Segundo ele, a área abriga 47 aldeias com quase 4 mil índios. O número de profissionais de saúde destinados ao atendimento exclusivo dos indígenas não é suficiente para atender toda a demanda.

 

“Há dois técnicos em enfermagem para 4 mil índios. A testagem ocorre só quando o Exército aparece e, mesmo assim, não é como o pessoal está pensando não, só alguns são testados. Na última visita, só atenderam 50 pessoas. Veja, nós somos 4 mil”, denuncia Raimundo.

 

Falta de caixões


A fala de Raimundo Guajajara encontra ressonância entre indígenas que moram na região. Natural da aldeia de Bacurizinho, Itahy Bento Guajajara conta que outro problema é a falta de instrução para os integrantes das tribos sobre a disseminação e o modo de ação do vírus.

 

“Realmente, existe uma omissão por parte da Sesai com as populações indígenas. Utilizaram a quarentena para se ausentarem, cada vez mais, de suas responsabilidades com os povos. Tem valores bilionários que não são repassados aos índios”, acrescenta.

 

De acordo com Itahy, não há veículo disponível para transporte emergencial dos infectados que precisam deixar as aldeias rumo às capitais em busca de tratamento. “Meu tio faleceu às 9h da manhã, mas só foram levar um caixão por volta de 16h. Não teve um carro pra prestar assistência, para um atendimento emergencial. Os familiares fretaram um carro para poder levar o corpo.”

 

Em vídeo cedido à reportagem, é possível observar familiares carregando uma das vítimas da Covid-19 na caçamba de uma caminhonete e em cima de uma maca improvisada.

 

Veja a gravação:

  

 

Faltam caixões para enterrar os mortos pela Covid-19. “As urnas funerárias que distribuem são de péssima qualidade. Sem condição de manter o falecido dentro dessas urnas, materiais de qualidade completamente inferiores. Nesse período muitos indígenas foram enterrados sem caixão”, diz.

 

Ela narra que, em casos graves, índios estariam sendo medicados com produtos vencidos. “Houve casos de profissionais da saúde que distribuíram remédios vencidos, postos sem funcionários. Na região Bananal, mesmo na UBS [Unidade Básica de Saúde] que era para ter um enfermeiro, um técnico e os agentes de saúde, está completamente vazia, sem ninguém para fazer atendimento emergencial.”

 

Socorro do Exército


A situação dos povos Guajajara das aldeias do Maranhão é crítica. Na última semana, helicópteros das Forças Armadas pousaram nas aldeias carregados de mantimentos e EPIs para serem distribuídos aos indígenas. Foram levados profissionais de saúde para atendimentos à população.

 

O repórter fotográfico Igo Estrela embarcou em um cargueiro C105 do Exército em Brasília, com os demais militares e profissionais de saúde da missão. O avião pousou em Imperatriz, no Maranhão, antes de a comitiva seguir para a cidade de Grajaú, onde fica o território indígena.

 

No total, foram destinadas 4,5 toneladas de insumos para os Guajajaras da região. Em alguns locais, como na aldeia Morro Branco, foi imposta uma barreira sanitária para conter o avanço do vírus.

 

militares levam medicamentos e equipamentos para as tribos indigenas covid-19

Fotos: Reprodução

 

O que diz a Sesai?


Em nota, a Secretaria Especial de Saúde Indígena afirmou ter destinado 14,2 mil profissionais de saúde para atendimento de áreas indígenas. Segundo a pasta, foram instaladas 208 Unidades de Atenção Primária Indígena (Uapi) desde março, além da distribuição de 3,3 mil itens de proteção individual.

 

“O Ministério da Saúde reitera, ainda, que está em constante diálogo com estados e municípios com presença de população indígena para a ampliação dos serviços de alta e média complexidade, reservando leitos específicos para os indígenas.”

 

De acordo com a Saúde, há 156 leitos exclusivos para indígenas em hospitais das cidades de Manaus (AM); Belém (PA); Marabá (PA); Santarém (PA); Macapá (AP); Atalaia do Norte (AM), e Benjamin Constant (AM). E assegura que integrou 14 missões de atendimento médico e distribuição de cestas básicas.

 

Já a Fundação Nacional do Índio (Funai) afirmou ter investido R$ 28 milhões no enfrentamento do novo coronavírus. Entre as medidas, está a entrega de aproximadamente 425 mil cestas de alimentos para mais de 207 mil famílias indígenas.

 

“A Funai já entregou mais de 69 mil kits de higiene e limpeza a indígenas, a fim de reforçar a adoção de medidas preventivas. O órgão promove, ainda, ações de orientação junto às comunidades sobre os protocolos de saúde. Os servidores da fundação vêm atuando na conscientização dos indígenas para que eles evitem as aglomerações e o deslocamento para os centros urbanos durante a pandemia”, diz a nota.

 

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O órgão argumenta ter feito 184 ações em 128 terras indígenas “para coibir ilícitos”, em parceria com Exército, a Polícia Federal, os Batalhões de Polícia Militar Ambiental e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). “No âmbito da promoção ao etnodesenvolvimento e à autonomia, já foram investidos R$ 10,4 milhões em ações que visam a geração de renda pelos povos indígenas”, conclui.

 

Metrópoles

 

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