Nova regra da Anvisa permite alegação específica para o suplemento quando associado ao treinamento de resistência; estudos apontam benefícios, mas indicam limitações
Conhecida há anos entre praticantes de atividades físicas pelo potencial de melhorar o desempenho nos exercícios, a creatina passou a ganhar destaque também nas discussões sobre envelhecimento saudável. Desde setembro, uma nova regra da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permite uma alegação específica para suplementos com creatina destinados a adultos com mais de 55 anos.
De acordo com a norma, o consumo diário de creatina, quando associado regularmente ao treinamento de resistência, pode aumentar o efeito do exercício sobre a força muscular.
A autorização, no entanto, não significa que a creatina produza esse efeito de forma isolada. O benefício reconhecido pela agência está relacionado à combinação entre a suplementação e a prática regular de exercícios de resistência.
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PERDA DE FORÇA AUMENTA COM O ENVELHECIMENTO
Com o avanço da idade, é natural ocorrer uma redução progressiva da massa e da força muscular. Esse processo pode afetar não apenas o desempenho físico, mas também tarefas do dia a dia, mobilidade e autonomia.
Por isso, a manutenção da musculatura se tornou um dos pontos importantes na promoção de um envelhecimento com mais independência.
A combinação entre exercícios de força e creatina vem sendo estudada há anos. Uma meta-análise publicada em 2017 reuniu 22 estudos com 721 adultos mais velhos e identificou ganhos maiores de massa magra e força nos membros superiores e inferiores entre participantes que utilizaram creatina associada ao treinamento de resistência.
Pesquisas mais recentes, porém, indicam que os resultados precisam ser interpretados com cautela.
Uma revisão e meta-análise publicada em 2026, que analisou 11 ensaios clínicos randomizados com pessoas de 60 anos ou mais, encontrou melhora estatisticamente significativa na força muscular entre aqueles que combinaram creatina e treinamento de resistência.
O efeito, entretanto, foi considerado pequeno. Para ganho de massa muscular e função física, os resultados não apresentaram diferença estatisticamente significativa. Os pesquisadores também alertaram que os achados não devem ser automaticamente aplicados a idosos frágeis ou com limitações funcionais.
SUPLEMENTO APRESENTA BOM PERFIL DE SEGURANÇA
A segurança da creatina também tem sido avaliada em diferentes pesquisas.
Uma análise publicada em 2025 examinou 685 ensaios clínicos envolvendo 12.839 participantes que utilizaram creatina. Os pesquisadores não encontraram diferença significativa na frequência geral de efeitos adversos entre os grupos que receberam o suplemento e aqueles que receberam placebo.
A revisão incluiu pesquisas com diferentes perfis de participantes e períodos de acompanhamento que chegaram a 14 anos.
Apesar dos resultados, isso não significa que a suplementação seja indicada de maneira indiscriminada. Pessoas mais velhas que possuem doenças ou fazem uso de medicamentos devem considerar o uso do suplemento de acordo com suas condições individuais e orientação profissional.
CREATINA NÃO SUBSTITUI O EXERCÍCIO
Para Aline Goettert, nutricionista e diretora executiva da Associação Brasileira de Suplementos Alimentares (BRASNUTRI), a mudança regulatória amplia a discussão sobre o uso da creatina para além do ambiente esportivo.
“A creatina deixou de ser um suplemento associado apenas à performance esportiva. Quando falamos de pessoas acima dos 55 anos, preservar força muscular significa também preservar autonomia e qualidade de vida. A nova alegação da Anvisa reforça uma discussão que já vinha ganhando espaço na ciência”, afirmou.
A principal mensagem da nova regra, portanto, não é colocar a creatina como substituta do exercício. A evidência destacada pela Anvisa está justamente na associação entre o suplemento e o treinamento de resistência.
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Assim, para pessoas que buscam preservar força e funcionalidade ao longo do envelhecimento, a creatina pode representar uma ferramenta complementar, mas não substitui a prática regular de exercícios nem os demais cuidados necessários para uma vida saudável.