NOTÍCIAS
Meio Ambiente
Crise climática põe tartarugas amazônicas na berlinda
Foto: Reprodução

Eventos extremos e mudanças no regime de chuvas, dos rios e na temperatura ameaçam o futuro de quelônios, já pressionados pela captura predatória

Com movimentos desajeitados, típicos de quem nada pela primeira vez, dezenas, centenas, às vezes até milhares de pequenas tartarugas amazônicas de uma vez dão suas primeiras “braçadas” em águas amazônicas. Em contraste com cenas de soltura como essas, realizadas por projetos de conservação que lutam para proteger os animais de casco da captura predatória na Amazônia, estão cenas dramáticas de filhotes enterrados na lama, ovos cozidos pelo calor e bichos que nascem com má formação. O cruel contraste é um retrato dos efeitos nefastos da crise climática sobre as tartarugas de água doce amazônicas.

 

A temporada de desova dos quelônios ocorre associada ao período de seca, quando os rios baixam e ficam expostas as praias fluviais que servem de lar aos ninhos das tartarugas. E enquanto o calendário se aproxima de mais um período de seca, que normalmente inicia em setembro na Amazônia, equipes de projeto de conservação se preparam para mais um ciclo de trabalho para proteger os ovos cobiçados das tartarugas amazônicas.

 

Chamado por cientistas de quelônios – nome dado ao grupo de répteis com casco, que incluem tartarugas, jabutis e cágados – estes animais são vítimas históricas da captura ilegal tanto dos ovos quanto dos indivíduos adultos para consumo ou comércio clandestino e são iguarias muito apreciadas em diversas regiões da Amazônia.

 

Veja também 

 

Desmatamento na Amazônia cresce 4% após incêndios, enquanto Cerrado registra queda de 20%

 

Lula demarca três terras indígenas no Ceará, e homologações chegam a 16 no governo

A lista de ameaças, entretanto, pode ser acrescida pela construção de barragens, que alteram o ritmo natural de cheias do rio e disponibilidade das áreas de desova; e ameaças mais contemporâneas, tal qual os microplásticos, a contaminação dos rios com agrotóxicos e remédios e, claro, a crise climática. Mudanças no regime dos rios, nas chuvas e na temperatura – provocadas como resultado de um planeta mais quente – tem bagunçado a vida dos quelônios.

 

Uma das iniciativas mais longevas para conservação de quelônios, o Programa Pé-de-Pincha, executado pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) em parceria com o Ibama e o ICMBio, que realiza o manejo comunitário dos animais e acompanha essas transformações desde 1999.

 

 

“No início, nós achávamos que o principal impacto das mudanças climáticas era a perda da área de desova, por conta das super cheias, mas hoje entendemos que isso não afeta tanto porque os bichos têm uma resiliência grande, eles buscam novas áreas. O maior impacto é o clima cada vez maior de extremos, com super cheias e super secas, que tem diminuído o sucesso dos nascimentos. O real problema não é a área de desova, mas a taxa de eclosão”, explica Paulo Cesar Andrade, professor da UFAM e coordenador-geral do Pé-de-Pìncha.

 

Presente hoje em mais de 120 áreas em 19 municípios, 17 do Amazonas e dois no oeste do Pará, o programa acompanha a situação das tartarugas nas calhas do rio Negro, Purus, até a região do Baixo Amazonas. Ao longo desses 26 anos, já devolveu aos rios mais de 11,5 milhões de filhotes – entre tracajás (Podocnemis unifilis), tartarugas-da-amazônia (Podocnemis expansa), iaçás (Podocnemis sextuberculata) e irapucas (Podocnemis erythrocephala).

 

Um dos fatores fundamentais, explica o coordenador, são as chuvas. Tanto no meio do período da seca, quando funcionam como um “despertador” para que as tartarugas comecem a desovar, quanto ao final da seca, quando são cruciais para molhar a terra e facilitar a saída dos filhotes.

 

 

Secas prolongadas e menos chuva podem aumentar a área de desova e permitir até um maior número de ninhos, “mas a taxa de nascimento é menor, porque eles não conseguem sair do ovo, o ovo pode cozinhar e há maior índice de ataque de formigas também”, conta Paulo. Chuvas em excesso também são um problema para o nascimento porque aumentam as chances dos ovos sofrerem com fungos e ataques de larvas de moscas, que aproveitam a umidade da areia para chegar aos ovos. “É necessário uma situação de equilíbrio”, reforça o professor da UFAM.

 

Os eventos extremos influenciam também o sexo dos quelônios. Em anos muito quentes, a tendência é nascerem mais fêmeas. Já em anos mais chuvosos e frios, a predominância seria dos machos. “Em 2021, por exemplo, tivemos um ano extremamente chuvoso aqui e na maioria das áreas nasceram 100% machos”, lembra Paulo.

 

Fotos: Reprodução

 

Dos últimos 15 anos, o rio Negro, no Amazonas, viveu cheias extremas em mais da metade, quando o rio ultrapassou o nível de 29 metros, que representa a cota de emergência. A pior delas em 2021, quando a água ultrapassou os 30 metros em Manaus. Este ano, o cenário de cheia extrema se repetiu no estado, com 40 dos 62 municípios amazonenses oficialmente em situação de emergência.

 

“Quando começamos o trabalho [em 1999], nos primeiros dez anos não tivemos nenhum evento extremo. A última grande cheia aqui no Amazonas era de 1953. Aí veio a cheia de 2009, 2012… e a de 2021 que quebrou o recorde”, comenta Paulo sobre como cheias extremas se tornaram rotina no estado.

 

Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no FacebookTwitter e no Instagram

Entre no nosso Grupo de WhatAppCanal e Telegram

 

“E nós tínhamos super secas em intervalos de cinco em cinco anos e agora em 2023 e 2024 foram dois anos severos de seca seguidos”, acrescenta o coordenador do Pé-de-Pincha. 

 

Fonte: O Eco

LEIA MAIS
DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Mensagem:

Copyright © 2013 - 2026. Portal do Zacarias - Todos os direitos reservados.