Curdos se preparam para novo conflito na Síria e acusam abandono dos Estados Unidos
Milícias formadas por civis curdos passaram a ocupar ruas e pontos estratégicos de cidades no norte da Síria, em um movimento que reflete a crescente tensão após a prorrogação de um cessar-fogo frágil com o governo sírio. Sentindo-se abandonados por antigos aliados internacionais, especialmente os Estados Unidos, os curdos afirmam estar se preparando para uma nova guerra contra a gestão do presidente Ahmed al-Sharaa e contra remanescentes do Estado Islâmico (EI).
Um dia após a renovação da trégua, postos de controle improvisados já se espalhavam por áreas urbanas da região curda. Pedreiros, comerciantes, estudantes, profissionais liberais e trabalhadores autônomos passaram a dividir as noites em vigília armada, em turnos que vão do início da noite até o amanhecer, sob temperaturas que chegam a –2 °C. O objetivo declarado é impedir infiltrações do EI e conter o avanço das forças governamentais.
Durante o dia, a vida civil segue quase normalmente. À noite, as ruas se transformam em linhas de defesa. “De manhã vendo flores na minha loja; de madrugada, fico aqui de guarda contra o Daesh”, relatou um comerciante local, referindo-se ao nome árabe do Estado Islâmico. Segundo ele, extremistas estariam circulando livremente, com tolerância ou apoio do novo governo sírio.
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Entre os voluntários armados, há jovens que abandonaram temporariamente estudos e planos pessoais. Alguns afirmam que a mobilização também é um gesto de apoio às Forças Democráticas da Síria (SDF), principal força curda armada, que segue posicionada em áreas estratégicas como Hassakeh e Kobani, apesar da trégua com prazo de 14 dias.
As SDF, criadas em 2015 com apoio direto dos Estados Unidos e de países aliados, foram decisivas na derrota territorial do Estado Islâmico em 2019. Elas administravam cerca de um quarto do território sírio, mantendo um sistema de autogoverno nas regiões de maioria curda. Esse equilíbrio, no entanto, começou a ruir após a queda de Bashar al-Assad, no fim de 2024, quando forças rebeldes lideradas por Ahmed al-Sharaa assumiram o poder em Damasco.
Desde o início de janeiro, tropas do novo governo avançaram sobre áreas antes controladas pelas SDF, especialmente regiões de maioria árabe. Cidades estratégicas como Raqqa e Deir Ezzor foram retomadas, assim como campos de petróleo, usinas hidrelétricas e prisões que abrigavam milhares de combatentes do EI. Durante essas operações, centenas de prisioneiros escaparam — número que o governo minimiza, mas que os curdos afirmam ser muito maior.

Foto: Reprodução
A libertação recente de menores acusados de ligação com o Estado Islâmico, em Raqqa, aumentou ainda mais a desconfiança. Enquanto parte da população local comemorou, as SDF negam que os jovens estivessem presos injustamente e veem o gesto como sinal de complacência com grupos extremistas.
Os Estados Unidos, antigos aliados estratégicos dos curdos, passaram a se aproximar do novo governo sírio e pressionam as SDF a aceitar sua integração total às Forças Armadas nacionais, abrindo mão da autonomia administrativa. Para os curdos, essas exigências são inaceitáveis, sobretudo após a incorporação, pelo Exército sírio, de combatentes de facções que no passado lutaram ao lado de grupos extremistas.
Lideranças curdas afirmam temer represálias semelhantes às sofridas por outras minorias no país. Nos últimos meses, confrontos envolvendo forças governamentais e milícias aliadas resultaram na morte de centenas de alauítas e drusos, apesar das promessas de inclusão feitas por Sharaa ao assumir o poder.
Ex-integrante da Al Qaeda e antigo líder do grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), classificado como organização terrorista por diversos países, Sharaa teve sanções internacionais suspensas após a mudança de governo. Ainda assim, entre os curdos, predomina a sensação de insegurança e traição.
“Nós sacrificamos nossos filhos para derrotar o terrorismo internacional e agora somos deixados à própria sorte”, afirmou um educador da cidade de Qamishli, que abriga famílias deslocadas por recentes ofensivas. “O novo governo solta extremistas e nos ameaça, enquanto a comunidade internacional permanece em silêncio.”
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Mesmo com o cessar-fogo em vigor, cidades como Kobani continuam cercadas por forças ligadas ao governo sírio e enfrentam uma grave crise humanitária. Para muitos curdos, a trégua é apenas uma pausa antes de um novo confronto inevitável.