*Por Antônio Zacarias - É preciso ter uma dose cavalar de cinismo — ou simplesmente não ter qualquer pudor — para, logo após um vexame acadêmico de proporções nacionais, ligar a câmera do celular e posar de líder da “mudança”, como se nada tivesse acontecido.
Maria Enxofre do Carmo, reitora da Fametro e pré-candidata ao Governo do Amazonas, fez exatamente isso. Dias depois de o curso de Medicina da instituição que comanda amargar nota 1 no Enamed, a pior do país, ela resolveu gravar vídeo, sorridente, confiante, cheia de frases prontas, como se o resultado não fosse um tapa na cara da educação, dos alunos e da sociedade amazonense.
Nota 1 não é detalhe técnico. Nota 1 é reprovação escancarada. É atestado de fracasso. É o Ministério da Educação dizendo, com todas as letras, que a formação médica oferecida ali está muito abaixo do mínimo aceitável. E não se trata de perseguição política, nem de “intriga dos incomodados”, como a retórica vitimista tenta insinuar. Trata-se de avaliação oficial, nacional, aplicada a 351 cursos de medicina em todo o Brasil.
Veja também

Dos 351, 107 foram considerados insatisfatórios. A Fametro está entre eles — e no pior patamar.
Mesmo assim, Maria Enxofre do Carmo preferiu ignorar o elefante na sala. Em vez de pedir desculpas aos estudantes, de explicar como pretende corrigir falhas graves ou de demonstrar respeito pelas famílias que investem sonhos e dinheiro na formação dos filhos, escolheu fazer discurso político, inflado e vazio, dizendo que sua pré-candidatura “cresce” e “incomoda”.
Incomoda quem, exatamente?
Certamente não incomoda os alunos de Medicina que agora veem o curso ameaçado por sanções do Inep, com restrições no Fies e suspensão de vagas. Tampouco incomoda os pais, que confiaram na promessa de excelência e receberam, em troca, uma nota vergonhosa. Esses não estão incomodados — estão indignados.
Mais grave ainda é o salto lógico que Maria Enxofre do Carmo tenta impor ao público: a ideia de que quem “mostrou resultados no setor privado” estaria automaticamente apta a governar o Amazonas. Que resultados são esses, afinal, quando o principal curso da instituição que dirige recebe nota 1 numa avaliação nacional?
Se isso é exemplo de gestão privada bem-sucedida, Deus nos livre da versão pública.
O episódio expõe não apenas uma crise educacional, mas uma crise de caráter político. Fingir normalidade diante de um fracasso desse tamanho não é força, não é resiliência, não é liderança. É cara de pau. É desrespeito. É tratar o povo do Amazonas como plateia ingênua, incapaz de entender o peso de uma avaliação oficial.
Quem não consegue responder por um curso de Medicina mal avaliado quer comandar um estado inteiro?
A pergunta fica no ar — e ecoa entre salas de aula frustradas, jalecos manchados pela incerteza e uma sociedade cada vez menos disposta a engolir discurso vazio embalado como “mudança”.
Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no Facebook, Twitter e no Instagram
Entre no nosso Grupo de WhatApp, Canal e Telegram
*Antônio Zacarias é fundador e proprietário do PORTAL DO ZACARIAS, atualmente no top 10 dos portais de notícias mais acessados do Brasil. Jornalista experiente, foi editor-geral de diversos jornais da Região Norte, com atuação destacada no Amazonas, onde dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério. Durante dois anos, atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte, a convite de Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral de O Globo. Antônio Zacarias é também autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra voltada à valorização do bom uso da língua portuguesa.