A dois dias do segundo turno, candidatos trocam farpas, ressuscitam escândalos, discutem corrupção e segurança pública e deixam propostas concretas em segundo plano
O último debate entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado na noite desta sexta-feira (23), na TV Globo, teve de tudo um pouco: ataques pessoais, acusações de corrupção, provocações, pedidos de desculpas, momentos de tensão e até troca de nomes.
O que faltou, em vários momentos, foram propostas claras para resolver os problemas do Brasil.
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Flávio Bolsonaro promete aumento real do salário mínimo e critica endividamento no Brasil
Com as pesquisas apontando uma disputa apertada, os dois candidatos entraram no estúdio dispostos a conquistar os indecisos. Mas o confronto acabou virando, em boa parte, uma guerra de acusações.
Lula apostou na experiência e nas realizações de seus governos. Flávio tentou explorar os problemas da atual administração, principalmente o custo de vida, os juros, o endividamento das famílias e a segurança pública.
E, quando os argumentos políticos não bastaram, sobraram provocações pessoais.
FLÁVIO ATACA OS NOVE DEDOS DE LULA E ACABA PEDINDO DESCULPAS
Um dos momentos mais tensos aconteceu quando Flávio Bolsonaro chamou Lula de “nove dedos”, numa referência ao dedo que o presidente perdeu em um acidente de trabalho, em 1964.
Lula não deixou barato.
Cobrou um pedido de desculpas e lembrou que milhões de brasileiros sofrem acidentes de trabalho.
Flávio recuou e pediu desculpas, afirmando que não tinha a intenção de ofender o presidente.
Mas não perdeu a oportunidade de emendar outro ataque, desta vez cobrando explicações sobre o aumento da população em situação de rua.
Lula, por sua vez, também partiu para o confronto pessoal. Chamou Flávio de “miliciano” e insistiu em apresentar o adversário como despreparado para governar o país.
Em determinado momento, comparou o senador a um estudante de vestibular que decora as respostas, mas não aprende a matéria.
Flávio respondeu com insinuações sobre a idade de Lula, de 80 anos, questionando sua audição e sua capacidade de se expressar.
BR-319 ENTRA NO DEBATE E LULA DEFENDE OBRAS DE SEUS GOVERNOS
A BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho, também apareceu no confronto.
Lula citou a estrada ao defender as realizações de seus governos na área de infraestrutura.
O presidente procurou mostrar que sua administração tem obras e resultados para apresentar, enquanto Flávio Bolsonaro ainda precisa explicar como pretende colocar suas propostas em prática.
O senador falou em ampliar a infraestrutura nacional e expandir o acesso à internet, mas não apresentou detalhes sobre os investimentos necessários.
Quando o assunto chegou à região Norte, Flávio destacou a necessidade de melhorar o saneamento básico.
Lula respondeu defendendo a economia verde, a preservação da floresta e a proteção das terras indígenas.
ECONOMIA VIRA CAMPO DE BATALHA
A discussão sobre economia também esquentou.
Flávio Bolsonaro atacou o governo Lula pelos juros elevados, pelo custo de vida e pelo endividamento das famílias brasileiras.
Voltou a defender sua proposta de congelamento de dívidas de pessoas físicas e empresas, sem esclarecer suficientemente como a medida funcionaria.
Lula rebateu lembrando a política de valorização do salário mínimo nos governos petistas.
O presidente também questionou o adversário sobre a independência do Banco Central e insistiu na comparação entre as propostas econômicas de Flávio e as medidas adotadas pelo presidente argentino Javier Milei.
Flávio saiu em defesa de Milei, argumentando que o argentino recebeu um país em situação econômica desastrosa.
SEGURANÇA PÚBLICA, MILÍCIAS E MORTE DE CRIANÇA ELEVAM A TENSÃO
A temperatura subiu ainda mais quando os candidatos passaram a discutir segurança pública.
Flávio cobrou uma posição mais dura do governo federal contra as facções criminosas e defendeu a retomada de territórios dominados pelo crime organizado.
Lula respondeu trazendo ao debate a morte de Ana Clara, uma menina de cinco anos atingida por um tiro de fuzil durante uma ação policial em Niterói, no Rio de Janeiro, em 2021.
A mãe da criança, Cristiane Gomes da Silva, estava no estúdio.
Flávio Bolsonaro, que atuou gratuitamente na defesa do policial militar suspeito de envolvimento na morte, dirigiu-se à mãe da menina, mas acabou confundindo os nomes.
O senador afirmou acreditar na inocência do policial.
Lula também protagonizou um momento constrangedor.
Ao defender a criação de um Ministério da Segurança Pública, disse que pretendia “acabar com a polícia”, quando, pelo contexto, queria se referir às milícias.
O ato falho não passou despercebido.
BETS E JOGO DO TIGRINHO TAMBÉM ENTRAM NA BRIGA
As apostas eletrônicas também foram assunto.
Lula chamou Jair Bolsonaro de “pai do tigrinho” e Flávio de “irmão”, numa provocação à família do ex-presidente.
O petista defendeu a proibição das bets, afirmando que as apostas estão destruindo a vida de muitas famílias brasileiras.
Flávio preferiu concentrar seus ataques na política de segurança pública do governo.
VORCARO, BANCO MASTER E ACUSAÇÕES DE CORRUPÇÃO MARCAM RETA FINAL
No último bloco, a discussão descambou para acusações envolvendo corrupção e relações políticas.
Lula trouxe à tona as ligações atribuídas a Flávio Bolsonaro com o advogado Willer Tomaz e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Também questionou o senador sobre uma disputa envolvendo um imóvel de luxo em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, e mencionou o orçamento de R$ 134 milhões atribuído ao filme biográfico de Jair Bolsonaro, intitulado Dark Horse.
Flávio reagiu citando reportagem da revista Veja segundo a qual Vorcaro teria comprado uma garrafa de uísque Macallan 1945, avaliada em aproximadamente R$ 500 mil, para presentear Lula.
As acusações foram usadas como armas políticas pelos dois candidatos, sem que o debate permitisse esclarecer todos os fatos mencionados.
ATÉ O MEDIADOR ENTROU NO CLIMA DE TENSÃO
O jornalista Cesar Tralli, responsável pela mediação, também acabou no centro de momentos de desconforto.
Em algumas ocasiões, Lula encerrou suas respostas antes de esgotar o tempo disponível.
Tralli perguntou se o presidente pretendia utilizar os segundos restantes.
Flávio demonstrou irritação com as intervenções do mediador e chegou a elevar o tom.
O episódio provocou agitação no estúdio e mostrou o clima de nervosismo que marcou a noite.
ELEIÇÃO APERTADA E DISPUTA PELOS INDECISOS
O confronto aconteceu num momento decisivo da campanha presidencial.
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.
Agora, os dois disputam voto a voto a Presidência da República.
Flávio tenta convencer o eleitorado de que representa uma alternativa ao PT. Lula procura mostrar que sua experiência administrativa oferece mais segurança ao país.
No debate desta sexta-feira, porém, os dois gastaram boa parte do tempo tentando desqualificar um ao outro.
QUEM GANHOU O DEBATE?
Politicamente, os dois candidatos conseguiram explorar os pontos que mais interessam às suas campanhas.
Lula levou vantagem quando o assunto foi experiência administrativa e obras realizadas em seus governos. Mas teve dificuldades para escapar das cobranças sobre os problemas econômicos de sua atual gestão.
Flávio conseguiu colocar na discussão temas sensíveis para o governo, como juros, endividamento e segurança pública. Por outro lado, voltou a deixar dúvidas sobre a viabilidade de algumas de suas propostas.
Os ataques pessoais também tiveram seu preço.
A provocação sobre os nove dedos de Lula obrigou Flávio a pedir desculpas. Já o presidente se expôs ao chamar o adversário de miliciano e ao cometer o ato falho sobre a polícia.
No fim das contas, não houve um vencedor incontestável.
Os dois falaram principalmente para seus próprios eleitores, enquanto os indecisos receberam mais acusações do que respostas.
A verdade é que o Brasil chegou à reta final de uma eleição extremamente disputada. E, no último grande confronto antes das urnas, Lula e Flávio Bolsonaro mostraram que sabem atacar. O eleitor, porém, ainda precisa decidir qual dos dois está mais preparado para governar.
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A resposta virá neste domingo, 25 de outubro, quando milhões de brasileiros voltarão às urnas para escolher o próximo presidente da República.