Mais de 200 estrangeiros foram interrogados no Cairo; grupo tenta chegar à fronteira com o enclave palestino para pressionar Israel a suspender bloqueio ao território
O governo do Egito deteve e interrogou mais de 200 estrangeiros que desembarcaram no país com o objetivo de participar da Marcha Global para Gaza, uma mobilização internacional que buscava romper simbolicamente o bloqueio israelense à Faixa de Gaza.
A ação, organizada por ativistas de mais de 40 países, previa uma travessia de cerca de 48 quilômetros pela Península do Sinai até a fronteira egípcia com o enclave palestino, na cidade de Rafah. Os ativistas planejavam chegar à fronteira na sexta-feira, sem a intenção de entrar no território devastado pela guerra.
Segundo os organizadores, cerca de 4 mil pessoas haviam se inscrito para a marcha, que tem como objetivo chamar a atenção para a crise humanitária em Gaza e pressionar Israel a permitir a entrada de ajuda humanitária. O bloqueio foi intensificado quando a guerra mais recente teve início, em outubro de 2023, e a passagem de Rafah permanece fechada desde que Israel tomou o controle do lado palestino da fronteira.
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— Esta é apenas mais uma ferramenta, uma outra forma de o povo levantar sua voz, para que os governos saibam que não estamos satisfeitos — disse Uzma Usmani, responsável por patrocínios e logística da delegação do Reino Unido da marcha, à rede americana CNN. — Precisamos tomar as rédeas, aumentar a conscientização, pressionar todos os diferentes governos para que comecem a agir.
Na quarta-feira, autoridades egípcias iniciaram uma série de detenções no Aeroporto Internacional do Cairo e em hotéis da capital. Segundo a iniciativa, há cidadãos detidos dos Estados Unidos, Austrália, França, Holanda, Espanha, Argélia, Marrocos e Tunísia. Em comunicado, os organizadores afirmaram que todos os participantes cumpriram os trâmites legais exigidos pelas autoridades egípcias. Parte dos detidos foi liberada após interrogatórios, enquanto outros acabaram deportados.
— As forças de segurança, muitas vezes à paisana, interrogaram ativistas, confiscaram celulares e revistaram pertences pessoais. Há relatos de deportações sumárias sem justificativas formais — disse Saif Abu Keshek, porta-voz da Marcha Global, à AFP.
Segundo o portal independente Mada Masr, 40 argelinos foram detidos na quarta-feira e liberados após 24 horas, enquanto dez integrantes de uma delegação marroquina foram impedidos de entrar no país. Ativistas turcos teriam sido deportados após erguerem bandeiras palestinas do lado de fora de um hotel. Nas redes, participantes relataram que não receberam nenhuma explicação oficial sobre os motivos da deportação.
As autoridades egípcias não comentaram diretamente as detenções, mas alegaram que o deslocamento de estrangeiros por áreas sensíveis, como o Sinai, depende de autorizações específicas. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que “o Egito se reserva o direito de tomar todas as medidas necessárias para preservar sua segurança nacional”.
“[Ressaltamos] a importância de seguir essas medidas regulatórias estabelecidas para garantir a segurança das delegações visitantes, devido às condições de segurança sensíveis nesta área fronteiriça desde o início da crise em Gaza”, afirmou o ministério, acrescentando que “nenhum pedido ou convite será considerado ou respondido se for apresentado fora do marco especificado pelas disposições regulatórias.”
Embora o governo egípcio tenha se posicionado publicamente contra o bloqueio a Gaza e pedido o fim da guerra, suas ações refletem a delicada relação com Israel. Cairo mantém um tratado de paz com Tel Aviv desde 1979 e atua como mediador nos conflitos entre Israel e o Hamas. Ao mesmo tempo, teme que protestos organizados possam ser usados por adversários internos, como a Irmandade Muçulmana, considerada organização terrorista pelo regime de Abdel Fattah al-Sisi.
O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, classificou os manifestantes como “jihadistas” e instou o Egito a impedir que eles chegassem à fronteira, afirmando que “eles colocam em risco o regime egípcio e representam uma ameaça a todos os regimes árabes moderados”.
A marcha foi organizada para coincidir com a chegada de uma caravana terrestre que saiu de Túnis, a capital da Tunísia, na segunda-feira. Com cerca de cem veículos e centenas de voluntários vindos de Argélia, Líbia, Marrocos, Tunísia e Egito, o comboio, batizado de Sumud — que significa resiliência em árabe — cruzou o Norte da África e estava, até a tarde desta quinta-feira, na cidade de Misrata, na Líbia.
Entre os participantes estão sindicalistas, lideranças políticas, advogados, médicos, jornalistas, atletas e membros de organizações de juventude. Apesar das dificuldades, os organizadores dizem que milhares de participantes já estão no Egito e planejam iniciar a marcha de ônibus até El-Arish na sexta-feira, antes de seguirem a pé até Rafah. A ideia é acampar por três dias na região como forma de pressionar as autoridades a abrir a passagem.
“Esperamos poder atuar ao lado do governo egípcio como parceiro. Nossos objetivos são comuns: exigir o fim do genocídio palestino e permitir a entrada de ajuda”, diz o comunicado da organização.
À medida que a guerra de Israel em Gaza entra no seu 21º mês, ativistas internacionais de alto perfil estão se tornando cada vez mais ativos em sua tentativa de romper o cerco. Na segunda-feira, Israel interceptou uma flotilha de ajuda com destino a Gaza, “Madleen”, detendo seus passageiros e levando-os para Israel. Entre os ativistas a bordo estava a sueca Greta Thunberg e o brasileiro Thiago Ávila. Greta deixou Israel na terça-feira, enquanto Ávila permanece detido no Estado judeu.
Desde março, Israel impôs um bloqueio total a Gaza, cortando o fornecimento de alimentos, combustível e suprimentos médicos. Apesar de ter flexibilizado ligeiramente as restrições no mês passado, especialistas alertam que a ajuda que chega ainda é insuficiente. Segundo a Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (IPC), autoridade internacional no tema, quase 500 mil palestinos enfrentam risco de fome, enquanto outros 1 milhão mal conseguem se alimentar.
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A guerra na Faixa de Gaza teve início após o ataque sem precedentes do Hamas ao território israelense em 7 de outubro de 2023, quando mais de 1,2 mil pessoas foram mortas e cerca de 250 foram sequestradas. Desde então, o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, afirma que mais de 52 mil palestinos foram mortos na ofensiva israelense, sendo mais da metade mulheres, crianças e adolescentes.
Fonte:O Globo