Em artigo, presidente da Abrapel avalia que bons indicadores econômicos não garantem, por si só, avaliação positiva do governo; importa a maneira como esses resultados são percebidos e interpretados
A eleição presidencial de 2026 começa a desafiar as explicações tradicionais sobre o comportamento do eleitor brasileiro. Apesar de indicadores econômicos que apontam crescimento e de uma disputa ainda concentrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, pesquisas mostram um eleitorado menos empolgado, mais desconfiado e com dificuldade de se identificar com as opções apresentadas.
Um dos principais sinais está no grupo de eleitores que não se considera lulista nem bolsonarista. Esse segmento representa cerca de um terço do eleitorado em alguns levantamentos e demonstra forte desencanto com a política. Muitos reclamam das condições de vida, do custo elevado e da falta de representação, mas também não encontram na oposição uma alternativa capaz de mobilizá-los.
A economia continua sendo um fator importante, mas não explica sozinha o comportamento das urnas. Mesmo com emprego e atividade econômica em níveis relativamente positivos, parte da população não percebe melhora proporcional no próprio cotidiano. Dívidas, crédito caro e o custo de vida mantêm a sensação de aperto financeiro e ajudam a alimentar a insatisfação.
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Ao mesmo tempo, a polarização perdeu parte da capacidade de produzir entusiasmo. O eleitor pode rejeitar um dos principais candidatos sem necessariamente se tornar um apoiador do adversário. Esse cenário abre espaço para candidatos que tentam ocupar o centro ou conquistar o chamado voto independente, embora a dificuldade de transformar esse descontentamento em uma candidatura competitiva permaneça grande.
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A campanha, portanto, chega a uma fase em que desencanto, rejeição e falta de identificação podem pesar tanto quanto economia e ideologia. O resultado dependerá da capacidade dos candidatos de conquistar eleitores que ainda não se sentem representados e que podem decidir o voto mais pela rejeição a uma alternativa do que por entusiasmo com outra.