Para monitorar as chuvas, estudantes do 6º ano desenvolvem instrumentos, coletam dados e integram ciência, tecnologia e conhecimentos tradicionais
Sou professora de geografia há dez anos e, desde 2019, trabalho em escolas ribeirinhas de Manaus, capital do Amazonas. Aqui, a vida é atravessada pelas águas e a seca histórica de 2023 mudou tudo ao nosso redor. O rio baixou como eu nunca tinha visto. As famílias ficaram isoladas, e nossa rotina escolar se desorganizou de um dia para o outro. Meus alunos estavam inquietos, preocupados, e muitos verbalizavam uma angústia que eu também sentia, mas que precisava ser transformada em algo construtivo.
Foi nesse contexto que nasceu o projeto Observatório da Estiagem – Ciência Cidadã na Amazônia, com a turma do 6º ano da Escola Municipal São João. Eu não queria apenas explicar o que é a estiagem, ou seja, um período prolongado de pouca ou nenhuma chuva, em que os rios, igarapés, lagos e poços começam a baixar gradualmente.
Queria que eles próprios pudessem medir, monitorar e comunicar o que estavam vivendo. Meu desejo era transformar o medo em protagonismo. Durante a seca de 2023, percebi que era exatamente isso que eu precisava trazer para o centro do currículo: a experiência concreta do território, unindo ciência, saberes tradicionais e tecnologia acessível.
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A proposta era oferecer aos estudantes o papel de jovens cientistas, com uma forma prática de monitorar o ambiente, da seguinte maneira: medir o nível do rio com uma régua linimétrica (instrumento de medição usado para monitorar o nível da água em rios, lagos, poços ou reservatórios) instalada por eles mesmos, coletar a quantidade de chuva em um pluviômetro caseiro, monitorar o nível de poços com um sensor eletrônico, registrar dados com multímetros (que permitem medir tensão, corrente e resistência — funções básicas para qualquer projeto que envolva circuitos, sensores ou eletrônica), além de observar a vida por meio de bioindicadores, como o comportamento animal e o aspecto da vegetação local.Estruturei o projeto inspirada na pedagogia de Paulo Freire e com base em três princípios que sempre nortearam minha prática:
Ciência cidadã, para que os alunos assumissem o papel de pesquisadores;
Etnociência, para valorizar o conhecimento dos moradores mais antigos;

Tecnologia social, para criar instrumentos simples, baratos e funcionais.
Apresentei a proposta à FAPEAM (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas) e consegui bolsas para alguns estudantes. Esse apoio foi essencial para garantir a continuidade do projeto e aprofundar nossa metodologia. Com esse suporte, formei uma pequena equipe com oito estudantes: sete do 6º ano e um do 8º ano.
O projeto funcionou como uma iniciação científica prática. Em sala de aula, durante as aulas de geografia, realizamos oficinas de capacitação (eletrônica básica, construção dos instrumentos) e momentos de análise de dados (criação de planilhas e gráficos). O coração do projeto pulsava no contraturno, quando a equipe de bolsistas realizava o trabalho de campo. Eles mediam a régua do rio, verificavam o pluviômetro e o sensor do poço, conversam com moradores e observam os bioindicadores. Isso gerou nos alunos uma disciplina própria, um papel real como pesquisadores.
O apoio da FAPEAM foi importante, pois, em comunidades ribeirinhas, as turmas são pequenas, a logística é desafiadora e muitos estudantes enfrentam dificuldades para manter a frequência. As bolsas de iniciação científica do PCE (Programa Ciência na Escola) ofereceram incentivo financeiro e, mais importante, deram a esses jovens uma nova identidade: deixaram de ser apenas alunos para se tornarem pesquisadores bolsistas, ou melhor, jovens cientistas. Esse reconhecimento oficial elevou a autoestima e fortaleceu o compromisso diário da equipe.

Começamos com oficinas práticas de nivelamento. Eu sabia que a teoria sozinha não sustentaria o interesse diante de uma crise real. Trabalhamos diretamente com os materiais e instrumentos, aprendendo na prática como funcionam sensores, protoboards, circuitos e multímetros.
O projeto durou cinco meses e foi uma imersão contínua, adaptada ao calendário das escolas ribeirinhas, que segue o ritmo da estiagem. Utilizamos algumas aulas de geografia para a base teórica e oficinas iniciais com toda a turma de jovens. A fase de monitoramento foi realizada majoritariamente no contraturno.
A execução prática ficou a cargo de três bolsistas do Programa de Ciência na Escola, uma iniciativa da FAPEAM, jovens cientistas escolhidos estrategicamente por morarem vizinhos à escola. Isso foi decisivo, pois os demais alunos dependem da lancha escolar e residem em locais distantes, não podendo permanecer após o horário de aula. A proximidade desses três estudantes viabilizou o monitoramento diário rigoroso. Cada um recebeu bolsa de R$ 300 durante cinco meses.

Fotos: Reprodução
A escolha dos instrumentos foi pedagógica e política. Trabalhamos com eletrônica de baixo custo (como o chip CI 555 e o sensor ultrassônico HC-SR04) e materiais reutilizáveis (garrafas PET e madeira), desmistificando a ideia de que a ciência depende de equipamentos caros e inacessíveis. Queríamos mostrar que a ciência de ponta pode ser feita com poucos recursos, tornando o projeto viável, sustentável e replicável em outras escolas públicas.
Todos os instrumentos, com exceção dos multímetros e termômetros, foram construídos pelas próprias crianças. Tivemos protótipos antes de chegar às versões finais do pluviômetro de garrafa PET, do higrômetro de cabelo (instrumento utilizado para medir a umidade relativa do ar) e da régua linimétrica feita com madeira reaproveitada e tinta atóxica.
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O processo foi totalmente “mão na massa”. Ao construir o instrumento, o aluno deixa de ser um usuário passivo e se torna um criador de tecnologia, o que fortalece o senso de pertencimento e orgulho. Todos os equipamentos foram instalados em pontos estratégicos na escola e na margem do rio. Os estudantes acessavam os dados diariamente, conforme escala semanal, registrando informações em planilhas e fotografando as medições.
Fonte: Porvir