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Engenheira que atuou em segurança de barragens da Vale defende: ''controle não pode depender de memória''
Foto: Divulgação

Com mais de 15 anos de atuação em medição e planejamento de obras pesadas, Mariangela Souza participou de projetos de reforço em barragens em Minas Gerais

Por Thabata Araujo - Entre 2016 e 2017, a engenheira Mariangela Souza atuou como técnica de medição nas barragens Forquilha I, II e IV, da Vale, em atividades de reforço, terraplenagem, drenagem e alteamento de barragem.

 

Nos anos de 2019 a 2021, Mariangela deixou o seu legado com a conclusão da obra de descaracterização da barragem de Fernandinho em Nova Lima, Minas Gerais. A barragem Fernandinho utilizava o método de alteamento a montante, o mesmo associado às tragédias de Mariana (2015) e Brumadinho (2019). A descaracterização significa que a estrutura perdeu a função de reter água e rejeitos, sendo reincorporada ao meio ambiente. Além da construção de um rigoroso sistema de drenagem, foram retirados 560 mil metros cúbicos de material do reservatório, gerenciados a partir da atuação de mais de 540 funcionários. Um dos capítulos mais sensíveis de uma carreira de mais de 15 anos dedicada a um trabalho pouco visível, mas decisivo: transformar o que acontece no canteiro de obras em dados que sustentam pagamentos, contratos e decisões de segurança, mesmo diante de projetos complexos.

 

"Trabalhar em barragens aumenta muito a percepção de responsabilidade. Você entende que por trás de cada levantamento, de cada quantidade e de cada registro existe uma estrutura que precisa responder exatamente ao que foi projetado e especificado. Isso muda a maneira como você encara o controle", afirma.

 

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Barragem Fernandinho, em Nova Lima (MG), foi a sexta estrutura

a montante eliminada desde 2019. (Foto: Divulgação) 

 

Formada na área de medição e planejamento, a função responsável por quantificar com precisão os serviços executados em campo e convertê-los em valores contratuais, Mariangela também atuou em projetos de mineração e siderurgia para grupos como Gerdau, Vallourec & Sumitomo do Brasil (VSB), CSN e Vale, passando por empresas como Integral Engenharia, Tecno Engenharia, Construtora Pontal, Paranasa, Construtora Brasil, Salum Construções e Cogel Construtora.

 

Nos anos seguintes ao trabalho nas barragens, ampliou a atuação para o controle tecnológico de materiais e solos e o planejamento de máquinas, equipamentos e suprimentos, competências aplicadas depois em obras emergenciais de reforço, drenagem, recuperação e contenção em diversos pontos da infraestrutura na Mina de Tamanduá, Mina do Pico e Mina de Viga, pertencentes ao complexo Vale.

 

"Em uma obra emergencial, o tempo pesa muito, mas a urgência não elimina a necessidade de controle. Pelo contrário. Quando as decisões precisam ser tomadas rapidamente, ter informações confiáveis faz ainda mais diferença. Pois é nosso compromisso contribuir com a transformação da mineração no Brasil", diz.

 

 

O MÉTODO POR TRÁS DO CONTROLE

 

A base do trabalho de Mariangela está na Estrutura Analítica do Projeto (EAP/WBS), ferramenta que divide um empreendimento em pacotes menores e relaciona execução, cronograma e custos. A rotina é apoiada por softwares como MS Project, Primavera P6, AutoCAD, Power BI, SAP e Topograph.

 

"Um bom controle não serve apenas para mostrar que houve um desvio. O ideal é perceber a tendência antes que ela vire um problema. Quando os dados mostram que determinada atividade está consumindo mais recursos ou avançando menos do que deveria, você ganha tempo para investigar a causa e corrigir a rota", explica.

 

Um exemplo desse método foi aplicado no projeto da Vale na Mina de Fábrica/Cava Segredo, em Minas Gerais, onde a engenheira ajudou a implantar um fluxo formal, Solicitações de Informação Técnica (SITs) e Notas de Alteração de Projeto (NAPs), para registrar mudanças identificadas em campo, como ajustes de terraplenagem, antes que virassem motivo de discussão contratual.

 

"O problema não é existir uma mudança no meio da obra. O problema é executar essa mudança e deixar para documentá-la depois. Quanto mais cedo ela entra no fluxo técnico e contratual, menor é o risco de discussão lá na frente", afirma.

 

Depois de aprovadas, as alterações eram incorporadas ao cadastro As-Built, base para a emissão dos Boletins de Medição (BMs) e para o Data Book final da obra.

 

 

"O DOCUMENTO CONTA A HISTÓRIA"

 

Para Mariangela, esse tipo de rastreabilidade é o que garante segurança jurídica e técnica em obras de grande porte.

 

"Quando tudo está registrado, você não depende da memória de quem estava na obra naquele momento. O documento conta a história: mostra por que houve a alteração, quem analisou, o que foi aprovado e o que efetivamente foi executado. Isso traz segurança para todos os envolvidos", destaca.

 

Essa lógica também orienta a forma como avalia o próprio trabalho de campo.

 

"Eu gosto de ir ao campo porque a planilha mostra o número, mas não necessariamente explica o motivo daquele número. Às vezes, uma produtividade abaixo do previsto parece ruim quando você olha somente o indicador — mas, no campo, descobre que houve uma interferência, uma mudança de projeto, uma condição diferente do solo. O número precisa ser analisado dentro de um contexto", diz.

 

RECADO PARA QUEM ESTÁ COMEÇANDO

 

Mariangela vê no setor uma mudança de patamar: planejamento, governança contratual e controle de custos deixaram de ser tarefas de retaguarda e passaram a ocupar posição estratégica dentro de grandes projetos.

 

"A tecnologia trouxe ferramentas muito poderosas para planejamento e controle, mas nenhuma ferramenta substitui a capacidade de interpretar o que os dados estão dizendo. O software ajuda a enxergar, mas a decisão continua dependendo de conhecimento técnico", avalia.

 

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Para quem está começando na área, o conselho é prático:

 

"Eu diria para não ter medo de conhecer o campo. Aprenda as ferramentas, domine os sistemas, estude planejamento e custos, mas vá até a obra e entenda como aquilo realmente é executado. Quanto mais você consegue conectar essas duas coisas, mais completo se torna como profissional." 

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