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ENQUANTO ROBERTO CIDADE, O 'COCÔ DE OURO', USA DINHEIRO PÚBLICO PARA FAZER CAMPANHA ELEITORAL, MÉDICOS CONTINUAM SEM RECEBER SEUS SALÁRIOS
Foto: Reprodução / PORTAL DO ZACARIAS

 

SEGREDOS DE BASTIDORES


*Por Antônio Zacarias - Enquanto o governador interino Roberto Cidade, o famoso “Cocô de Ouro”, percorre hospitais, participa de mutirões de cirurgias oftalmológicas, empurra pacientes em cadeiras de rodas para as câmeras e divulga vídeos nas redes sociais, uma realidade menos conveniente continua assombrando a saúde pública do Amazonas: médicos e outros profissionais seguem denunciando atrasos salariais que, em alguns casos, ultrapassam oito meses.

 

A contradição é difícil de ignorar.

 

De um lado, uma intensa agenda de marketing institucional construída em torno da imagem de um governador preocupado com a saúde.

 

Do outro, profissionais que sustentam o funcionamento da rede pública sem receber pelo trabalho prestado.

 

Sem médico pago, não existe mutirão que resolva o problema estrutural da saúde.

 

A SAÚDE DAS FOTOS E A SAÚDE REAL

 

Embora Roberto Cidade ainda não tenha anunciado oficialmente sua candidatura à reeleição, praticamente todas as suas movimentações políticas apontam nessa direção.

 

As agendas públicas se intensificaram, as aparições em eventos de governo se multiplicaram e a exposição nas redes sociais passou a ocupar papel central na estratégia de comunicação da atual gestão.

 

Os mutirões, as visitas a hospitais, as entregas de ações governamentais e os registros fotográficos cuidadosamente divulgados fazem parte de uma construção política que dificilmente seria realizada por alguém sem pretensões eleitorais.

 

Por isso, a discussão sobre os atrasos salariais na saúde ganha ainda mais relevância.

 

Quando um governante busca fortalecer sua imagem perante o eleitorado, a cobrança por resultados concretos também aumenta.

 

Poucas cobranças são mais legítimas do que aquela feita pelos profissionais que continuam aguardando pelo pagamento do próprio trabalho.

 

OITO MESES SEM PAGAMENTO

 

Em maio deste ano, denúncias divulgadas pelo vereador Rodrigo Guedes apontaram que profissionais da saúde da rede estadual acumulavam meses de salários atrasados. Segundo os relatos, havia médicos da FCecon aguardando pagamentos há até oito meses, além de trabalhadores de outras unidades igualmente afetados.

 

Mais recentemente, após Roberto Cidade anunciar que teria pago mais de R$ 100 milhões em débitos da saúde, representantes da categoria contestaram a informação e afirmaram que os atrasos continuam atingindo diversos profissionais da rede, ou seja: o governo afirma que está pagando.

 

Parte dos médicos afirma que continua sem receber.

 

Alguém precisa explicar essa conta.

 

A CONTA QUE NÃO FECHA

 

O discurso oficial tenta transmitir a ideia de reorganização da saúde, mad existe uma pergunta simples que permanece sem resposta: como um governo consegue mobilizar recursos para campanhas institucionais, eventos, mutirões e ações de divulgação, mas ainda enfrenta dificuldades para regularizar salários de quem está na linha de frente do atendimento?

 

A população pode até aplaudir a entrega de cirurgias, mad dificilmente aceitará que o profissional responsável pelo procedimento continue aguardando pagamento.

 

Nenhuma política pública se sustenta sobre calotes. Nenhuma.

 

MARKETING NÃO SUBSTITUI GESTÃO

 

Mutirões são importantes. Cirurgias são necessárias. Reduzir filas é obrigação do poder público, mas isso não pode servir de cortina para esconder problemas administrativos.

 

Quando um governo prioriza a construção de imagem antes da solução definitiva dos problemas, corre o risco de transformar a saúde em palco eleitoral.

 

Esse risco cresce ainda mais quando estamos em um ano eleitoral e quando o ocupante do cargo pretende permanecer no poder.

 

A saúde pública precisa de planejamento. Precisa de gestão. Precisa de transparência.E, acima de tudo, precisa respeitar quem trabalha nela.

 

CONCLUSÃO DE BASTIDOR

 

O “Cocô de Ouro” tem todo o direito de divulgar ações de governo.

 

O que não pode é permitir que a propaganda avance mais rápido que a solução dos problemas.

 

A população gosta de ver cirurgias acontecendo, mas também quer saber se os médicos estão recebendo, pois entre a foto e o pagamento existe uma diferença enorme.

 

A foto rende curtidas, o pagamento garante que a saúde continue funcionando. E hoje, no Amazonas, muita gente tem a impressão de que o marketing está chegando antes do dinheiro.

 

* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.


Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.


Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.


Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.

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