Para a socióloga Allison Pugh, substituir relações humanas por algoritmos pode comprometer criatividade, propósito e inovação
Durante o Century Summit VI, realizado pela Stanford University, o debate sobre longevidade, aprendizado e futuro do trabalho ganhou um contraponto relevante. A socióloga Allison Pugh, professora da Johns Hopkins University, alertou para os riscos de transformar a inteligência artificial em solução universal para os desafios contemporâneos.
Autora do livro The Last Human Job: The Work of Connecting in a Disconnected World, Pugh entrevistou, ao longo de cinco anos, cerca de cem profissionais que atuam no que ela definiu como “trabalho de conexão”. São ocupações centradas na empatia e na interação direta médicos, enfermeiros, terapeutas, cuidadores e até cabeleireiros cuja principal habilidade é enxergar e compreender o outro.
Segundo a pesquisadora, o futuro do aprendizado e do trabalho deve permanecer centrado nas pessoas. Para ela, é da conexão humana que surge a inovação. Quando indivíduos constroem relações autênticas, criam soluções e desenvolvem propósito.
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A IMPORTÂNCIA DA “FRICÇÃO”
Pugh defende que tanto a educação quanto o ambiente profissional exigem um elemento essencial: a “fricção”. Trata-se do desconforto produtivo que impulsiona crescimento, criatividade e amadurecimento.
Na avaliação da socióloga, a inteligência artificial é frequentemente celebrada por ser sempre disponível, não julgar e responder prontamente às demandas do usuário. No entanto, ao eliminar tensões e conflitos, os algoritmos também podem suprimir experiências fundamentais para o desenvolvimento humano.

Foto: Reprodução
“A criatividade não nasce do conforto permanente”, argumenta. O senso de propósito, segundo ela, surge de interações que envolvem desafios, diferenças e dificuldades elementos que as tecnologias tendem a suavizar ou evitar.
INTERESSES ECONÔMICOS EM JOGO
O debate ganha dimensão ainda maior diante do peso econômico da indústria de tecnologia. Reportagem do The New York Times revelou que a Meta, dona de Facebook, Instagram e WhatsApp, planeja investir US$ 65 milhões em 2026 para apoiar políticos alinhados à agenda da inteligência artificial. O valor representa o maior aporte eleitoral já feito pela empresa, sinalizando a relevância estratégica do setor.
Para Pugh, o momento é decisivo. A questão não é rejeitar a tecnologia, mas definir seus limites. A inteligência artificial pode acelerar pesquisas científicas e otimizar processos complexos. O problema surge quando passa a ocupar espaços de ensino, mentoria e convivência que dependem essencialmente da experiência humana.
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Ao transformar a IA em resposta para tudo, alerta a socióloga, corre-se o risco de comprometer justamente aquilo que diferencia as pessoas das máquinas: a capacidade de criar sentido por meio da conexão.