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Estatinas são mais seguras do que sugerem as bulas, aponta meta-análise publicada na The Lancet
Foto: Reproduçao

Estudo com 19 ensaios clínicos indica que maioria dos efeitos colaterais listados não tem comprovação científica robusta

Um novo levantamento científico publicado na revista The Lancet reacendeu o debate sobre a segurança das estatinas, medicamentos amplamente usados para reduzir o colesterol. A meta-análise, conduzida pela Colaboração de Pesquisadores de Tratamento do Colesterol (CTT), conclui que os riscos associados ao uso das estatinas são significativamente menores do que sugerem as extensas listas de efeitos colaterais presentes nas bulas.

 

As estatinas atuam principalmente na redução do LDL, o chamado “colesterol ruim”. Níveis elevados dessa substância favorecem o acúmulo de gordura nas paredes das artérias, aumentando o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Ao longo das últimas três décadas, centenas de milhões de pessoas utilizaram esses medicamentos, cuja eficácia na prevenção de eventos cardiovasculares e mortes é amplamente comprovada.

 

Apesar do consenso científico de que os benefícios superam os riscos, muitos pacientes interrompem o tratamento ou sequer o iniciam por receio dos efeitos adversos descritos nos folhetos informativos.

 

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POUCOS EFEITOS COMPROVADOS

 

Na meta-análise, os pesquisadores avaliaram 19 estudos clínicos randomizados e duplo-cegos modelo considerado padrão-ouro na pesquisa médica. Ao todo, cinco diferentes estatinas foram analisadas. Em cada estudo, um grupo recebeu o medicamento e outro, placebo, sem que pacientes ou médicos soubessem quem estava em qual grupo durante o acompanhamento.

 

O resultado mostrou que, dos 66 possíveis efeitos colaterais mencionados nas bulas, apenas quatro puderam ser efetivamente associados ao uso das estatinas. São eles:

 

aumento de enzimas hepáticas,

 

alterações na função hepática,

 

mudanças na composição da urina,

 

ocorrência de edemas.

 

Mesmo nesses casos, as diferenças entre o grupo que tomou estatina e o que recebeu placebo foram, em geral, pequenas.

 

Os efeitos musculares leves e o discreto aumento do risco de diabetes já conhecidos também foram observados, mas considerados manejáveis e de baixo impacto clínico na maioria dos pacientes.

 

SEM AUMENTO DE RISCO DE CÂNCER OU DEMÊNCIA

 

Especialistas independentes reforçam que os dados são tranquilizadores. Segundo Oliver Weingärtner, médico do Hospital Universitário de Jena, na Alemanha, os eventuais efeitos colaterais costumam surgir logo no início do tratamento ou não aparecem. Por isso, o monitoramento da função hepática nas primeiras semanas é suficiente para identificar possíveis alterações.

 

Ulrich Laufs, diretor de cardiologia do Hospital Universitário de Leipzig, destaca que as estatinas estão associadas apenas a um leve aumento absoluto nas enzimas hepáticas e não a uma série de sintomas frequentemente temidos. Estudos de longo prazo também descartam aumento no risco de câncer ou demência, mesmo com uso prolongado.

 

O PAPEL DO EFEITO NOCEBO

 

Para especialistas, parte da percepção negativa sobre as estatinas pode ser explicada pelo chamado efeito nocebo quando a expectativa de um efeito adverso contribui para que o paciente sinta sintomas.

 

Segundo Stefan Blankenberg, presidente da Sociedade Alemã de Pesquisa de Cardiologia, a dor muscular é o principal efeito colateral real, sendo dose-dependente e reversível com a suspensão do medicamento. No entanto, estudos mostram que relatos de dor também ocorrem em frequência semelhante entre pacientes que recebem placebo.

 

De acordo com Laufs, cerca de 90% dos efeitos colaterais atribuídos às estatinas podem estar relacionados ao efeito nocebo.

 

POR QUE AS BULAS SÃO TÃO EXTENSAS?

 

A presença de longas listas de possíveis efeitos adversos nas bulas tem explicação jurídica. Os fabricantes são obrigados a informar todos os eventos que apresentem suspeita plausível de associação ao medicamento, mesmo que não haja comprovação definitiva.

 

Para retirar um efeito colateral da bula, no entanto, é necessário demonstrar de forma conclusiva que ele não está relacionado ao medicamento processo complexo, demorado e custoso.

 

Especialistas defendem mudanças nesse modelo. Uma das propostas é incluir, além das informações legais obrigatórias, um resumo baseado em evidências científicas robustas, que apresente de forma clara os riscos reais e os benefícios comprovados.

 

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Para os autores da análise, a mensagem central é clara: as estatinas continuam sendo uma das ferramentas mais eficazes na prevenção de doenças cardiovasculares, e o medo dos efeitos colaterais não deveria impedir pacientes de receber um tratamento potencialmente salvador. 

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