Evento global entre 2014 e 2017 foi o mais longo e abrangente já registrado e expôs a vulnerabilidade dos recifes ao aquecimento dos oceanos.
Um estudo internacional inédito publicado na revista científica Nature Communications revela que cerca de 80% dos recifes de coral do planeta sofreram branqueamento em nível moderado ou severo durante o terceiro evento global do fenômeno, ocorrido entre 2014 e 2017. A pesquisa aponta ainda que aproximadamente 35% das áreas analisadas registraram mortalidade também moderada ou elevada.
Considerada a análise mais abrangente já realizada sobre o tema, a pesquisa reuniu dados de mais de 15 mil levantamentos em diferentes oceanos. Para estimar a dimensão dos impactos, os cientistas combinaram observações de campo com informações de satélite sobre a temperatura da superfície do mar e o estresse térmico acumulado, o que permitiu avaliar inclusive regiões sem monitoramento direto.
O branqueamento acontece quando o aumento da temperatura da água rompe a relação entre os corais e as microalgas que vivem em seus tecidos e fornecem grande parte da energia necessária para sua sobrevivência. Sem essas algas, os corais perdem a cor, reduzem o crescimento e a capacidade de reprodução e, em casos de estresse prolongado, podem morrer.
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A análise indica que mais da metade dos recifes do mundo foi afetada de forma significativa. Além disso, o episódio de 2014 a 2017 superou eventos anteriores registrados em 1998 e 2010, tanto em escala quanto em duração. Pela primeira vez, um evento global de branqueamento se estendeu por três anos consecutivos.
Segundo Guilherme Longo, pesquisador da UFRN e um dos autores do estudo, a frequência desses episódios aumentou de forma preocupante. “Antes dos anos 2000, o branqueamento ocorria a cada 10 ou 15 anos, o que ainda permitia a recuperação dos recifes. Hoje, os intervalos são muito menores, o que enfraquece os corais e eleva a mortalidade, especialmente das espécies mais sensíveis”, afirma.
Os pesquisadores destacam que o aquecimento dos oceanos tem intensificado as ondas de calor marinhas, reduzindo o tempo de recuperação entre um evento e outro. Esse efeito cumulativo já foi observado em diversas regiões, onde recifes afetados entre 2014 e 2017 voltaram a sofrer branqueamento severo poucos anos depois, resultando em novas perdas e mudanças na composição das espécies.
Em alguns casos, a recuperação aparente medida apenas pela cobertura de corais pode mascarar a perda de diversidade e de funções ecológicas essenciais. No Brasil, embora os impactos desse terceiro evento tenham sido relativamente menores em comparação com outras regiões, possivelmente devido a fatores locais como maior turbidez da água, os cientistas alertam que os recifes nacionais também sofreram perdas relevantes em episódios posteriores e se tornaram mais vulneráveis ao longo do tempo.
Além dos danos ambientais, a degradação dos recifes afeta diretamente atividades econômicas e sociais. Esses ecossistemas protegem o litoral contra a erosão, sustentam a pesca, impulsionam o turismo e garantem alimento e renda para milhões de pessoas em todo o mundo.
Especialistas ressaltam que o branqueamento pode ser desencadeado por um aumento de apenas 1 °C na temperatura da água por algumas semanas. Por isso, o enfrentamento do problema passa, necessariamente, pela redução das emissões de gases de efeito estufa, pela preservação dos recifes ainda resistentes e pelo controle da poluição costeira.
Não existe uma solução única para salvar os recifes, mas pesquisadores apontam estratégias para retardar os danos e aumentar a resiliência desses ecossistemas. Entre elas estão o desenvolvimento de corais mais resistentes ao calor, estudos sobre o microbioma dos corais, o uso experimental de antioxidantes naturais, técnicas de sombreamento e projetos de cultivo e replantio, como os chamados “jardins de coral”.
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Apesar dos avanços, os cientistas alertam que essas iniciativas têm limites. O ritmo das mudanças climáticas segue mais rápido do que a capacidade natural de adaptação dos recifes, mantendo o futuro dos corais sob risco em escala global.