Cientistas esperam entender melhor o que é a consciência e como ela surge em todos nós ao determinar quando ela começa em jovens humanos
A partir de que momento um ser humano começa a ter consciência? Essa é uma das perguntas que desafiam cientistas há séculos. Pesquisas recentes, porém, estão trazendo novas pistas sobre o desenvolvimento da consciência em recém-nascidos e até mesmo durante a gestação.
Estudos realizados por pesquisadores de diferentes países identificaram sinais de atividade cerebral em bebês que se assemelham a padrões observados em adultos conscientes. Os resultados sugerem que a consciência pode surgir muito antes de as crianças desenvolverem a fala ou conseguirem responder a estímulos de maneira intencional.
A consciência é geralmente entendida como a capacidade de perceber o ambiente e integrar essas informações às experiências internas. Apesar dessa definição, ainda não existe consenso científico sobre como ela surge no cérebro ou em que momento do desenvolvimento humano isso acontece.
Veja também

Burnout não é problema do trabalhador, mas do ambiente de trabalho
Estudo relaciona consumo de proteína animal a níveis mais baixos de testosterona
Segundo o neonatologista Topun Austin, da Universidade de Cambridge, compreender esse processo exige investigar como a atividade dos neurônios se transforma na experiência de estar consciente.
TESTES IDENTIFICAM RESPOSTAS CEREBRAIS EM RECÉM-NASCIDOS
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/7/h/xt7lTwRlqvVZbUHFNPiQ/babies-consciousness-3-1-.jpg)
Uma das estratégias utilizadas pelos cientistas consiste em reproduzir sequências de sons e observar como o cérebro reage quando ocorre uma mudança inesperada. Em adultos conscientes, essa alteração pode provocar uma resposta cerebral característica, que costuma não aparecer da mesma maneira durante o sono ou o coma.
Em um experimento realizado na Alemanha, pesquisadores utilizaram sensores para registrar a atividade cerebral de recém-nascidos enquanto reproduziam combinações de tons graves e agudos. Os cérebros dos bebês apresentaram respostas distintas quando os padrões sonoros mudavam.
Para a filósofa Claudia Passos-Ferreira, da Universidade de Nova York, os resultados indicam que o cérebro dos recém-nascidos já apresenta algumas respostas semelhantes às observadas em adultos.
Entretanto, esse tipo de reação, isoladamente, não comprova que os bebês tenham experiências conscientes. Por isso, os pesquisadores procuram reunir diferentes indicadores que, analisados em conjunto, possam oferecer evidências mais consistentes.
O QUE CHARLES DARWIN PENSAVA SOBRE A CONSCIÊNCIA INFANTIL
O naturalista Charles Darwin também investigou o desenvolvimento da consciência. Após o nascimento de seu primeiro filho, em 1839, ele começou a registrar comportamentos e mudanças observadas durante os primeiros meses de vida.
Darwin inicialmente interpretava ações como sugar, bocejar e chorar como respostas instintivas. Para ele, os sinais de consciência só ficavam mais evidentes à medida que as crianças desenvolviam habilidades como reconhecer o próprio reflexo, falar e alcançar objetos.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/3/j/k8AsjtRtuBaeWSnYfeYA/babies-consciousness-2.jpg)
Durante muito tempo, ideias semelhantes influenciaram a compreensão médica sobre os recém-nascidos. A percepção de que eles não sentiriam dor como crianças maiores e adultos contribuiu para práticas médicas que deixavam de utilizar anestesia em determinadas cirurgias. Com o avanço das pesquisas, essa conduta foi abandonada, e estudos passaram a demonstrar que os recém-nascidos apresentam respostas cerebrais à dor.
Outras pesquisas também identificaram capacidades cognitivas precoces, levando cientistas a reconsiderar quando e como a consciência começa a se desenvolver.
NOVAS TECNOLOGIAS AJUDAM A MAPEAR O CÉREBRO DOS BEBÊS
Pesquisadores do Developing Connectome Project, em Londres, adaptaram equipamentos de ressonância magnética para estudar a atividade cerebral de centenas de bebês, incluindo recém-nascidos.
As análises identificaram regiões cerebrais que se ativam de maneira coordenada, formando redes semelhantes às observadas em adultos acordados. Esse padrão é considerado um possível indicador de consciência, embora não seja suficiente, sozinho, para confirmá-la.
Outras equipes utilizam tecnologias que monitoram a atividade cerebral por meio de luz, ultrassom e sensores capazes de detectar campos magnéticos produzidos pelo cérebro.
A neurocientista Lorina Naci, do Trinity College Dublin, investiga como diferentes regiões cerebrais interagem nos primeiros estágios da vida. Os resultados de sua equipe indicam que o cérebro dos bebês apresenta padrões complexos de conectividade, reforçando a necessidade de compreender a consciência para além das capacidades de falar, planejar ou executar tarefas.
A CONSCIÊNCIA PODE COMEÇAR ANTES DO NASCIMENTO?
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/h/L/uWLsbORAeVaPUaVLor9w/babies-consciousness-1.jpg)
Fotos: Reprodução
Outra frente de pesquisa busca identificar sinais de consciência durante a gestação. Os cientistas investigam como as conexões neurais necessárias para integrar informações sensoriais se desenvolvem no cérebro fetal.
Em geral, pesquisadores consideram que essas conexões precisam atingir determinado grau de maturidade para que possa existir uma experiência consciente integrada. Antes de aproximadamente 26 semanas de gestação, algumas das conexões necessárias ainda não estão estabelecidas.
No entanto, o momento exato em que a consciência começa a surgir permanece desconhecido. Em levantamentos com especialistas, a maioria dos pesquisadores consultados considera possível que os bebês já apresentem algum nível de consciência ao nascer, embora existam divergências sobre quando isso acontece e como identificá-lo.
A resposta pode ajudar a explicar a função da consciência nos primeiros momentos da vida. Para Lorina Naci, ela talvez permita que os bebês comecem a interpretar o ambiente e a aprender desde os primeiros dias após o nascimento.
A pesquisadora também levanta a possibilidade de que a consciência infantil seja diferente da experiência dos adultos. Estudos sobre a interação entre regiões cerebrais identificaram níveis elevados de complexidade nos padrões de atividade dos bebês, embora isso não signifique necessariamente que eles tenham uma consciência superior.
Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no Facebook, Twitter e no Instagram.
Entre no nosso Grupo de WhatApp, Canal e Telegram
Os cientistas ainda precisam reunir mais evidências para compreender como a consciência emerge, quais são suas primeiras manifestações e de que maneira ela se transforma ao longo do desenvolvimento humano.