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Estudo revela como o rio Amazonas aumenta a capacidade do Atlântico de absorver CO2
Foto: Divulgação

Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande analisou quase três décadas de dados e identificou mudanças na salinidade e na química do oceano provocadas pela pluma do maior rio do mundo.

A água doce do rio Amazonas exerce influência significativa sobre a química do Oceano Atlântico e contribui para ampliar a absorção de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera. É o que aponta um estudo publicado na revista científica internacional Global Biogeochemical Cycles, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), com a colaboração de cientistas de outras instituições.

 

O Amazonas responde por cerca de um quinto de toda a água doce que chega aos oceanos. Ao desaguar no Atlântico, essa enorme quantidade de água forma a chamada pluma do rio Amazonas, que se espalha pelas correntes marítimas e alcança regiões situadas a centenas de quilômetros da foz.

 

De acordo com a pesquisa, a influência dessa pluma reduz em aproximadamente 9% a salinidade média do Atlântico Tropical Oeste. A mudança nas características da água também interfere em diferentes componentes do sistema químico do carbono no oceano, favorecendo a absorção de CO2 atmosférico.

 

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Os efeitos são mais intensos durante o período chuvoso na Amazônia, quando o volume de água doce transportado pelo rio aumenta. Nessa época, a redução da salinidade pode chegar a 11%, enquanto determinados componentes da química do carbono apresentam diminuição entre 8% e 10%.

 

NUTRIENTES FAVORECEM ORGANISMOS QUE ABSORVEM CO2

 

Além de alterar a salinidade, a pluma do Amazonas transporta nutrientes que favorecem o desenvolvimento do fitoplâncton, conjunto de microrganismos que realiza fotossíntese e constitui a base da cadeia alimentar marinha.

 

Durante esse processo, esses organismos utilizam dióxido de carbono, contribuindo para a circulação do carbono no ambiente oceânico. A maior disponibilidade de nutrientes associada à influência da pluma pode favorecer a atividade desses microrganismos e interferir nos fluxos de CO2 entre o oceano e a atmosfera.

 

Na estação seca, quando a influência da pluma diminui, a abundância de fitoplâncton também tende a ser menor, segundo as informações apresentadas pelos pesquisadores. Esse cenário pode reduzir a contribuição desse processo para a absorção de carbono.

 

A pesquisa evidencia, assim, que os efeitos do rio Amazonas vão muito além da região próxima à sua foz, alcançando áreas extensas do Atlântico e influenciando processos importantes para o equilíbrio climático.

 

PESQUISA ANALISOU DADOS COLETADOS ENTRE 1991 E 2019

 

Para chegar aos resultados, os cientistas reuniram informações obtidas entre 1991 e 2019 por pesquisadores de diferentes países. Os dados foram coletados em expedições científicas realizadas no oceano e por equipamentos instalados em navios mercantes que percorrem rotas pelo Atlântico.

 

A equipe analisou parâmetros como salinidade, temperatura e concentração de CO2 na superfície do mar e na atmosfera. Também avaliou variáveis químicas, incluindo alcalinidade, pH e concentração de carbono inorgânico dissolvido.

 

Os pesquisadores compararam as médias observadas no Atlântico ao longo de quase três décadas com as condições registradas nas áreas diretamente influenciadas pela pluma do Amazonas. A análise considerou as diferenças entre os períodos chuvoso e seco para estimar a contribuição da descarga de água doce nas alterações químicas do oceano.

 

O trabalho é derivado da dissertação de mestrado de Matheus Batista, orientado pelos professores Eunice Machado e Rodrigo Kerr, da FURG. A pesquisa também contou com a colaboração de cientistas da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Sorbonne, na França.

 

Segundo Matheus Batista e Thiago Monteiro, professor da UFBA e coautor do estudo, um dos diferenciais da pesquisa é a utilização de dados observacionais para quantificar a influência da pluma sobre as características químicas do Atlântico.

 

Estudos anteriores sobre o tema utilizaram principalmente modelos computacionais para simular como seria o oceano sem a influência do rio. A nova abordagem permite estimar os efeitos a partir de informações coletadas diretamente no ambiente marinho.

 

“Este trabalho mostra que o que acontece na foz do Amazonas e na margem equatorial gera impacto em uma área muito grande no oceano Atlântico”, destacou Thiago Monteiro.

 

PRÓXIMA ETAPA É INVESTIGAR MUDANÇAS AO LONGO DO TEMPO

 

Apesar dos resultados, os pesquisadores afirmam que ainda é necessário compreender melhor como a influência da pluma varia ao longo dos anos e em diferentes profundidades do oceano.

 

A equipe pretende ampliar as análises para além da superfície, investigando as mudanças na coluna d’água. Outro objetivo é avaliar se os percentuais de alteração dos parâmetros químicos permanecem estáveis ou apresentam tendências ao longo do tempo.

 

“Ainda não sabemos se o percentual de diminuição desses parâmetros varia ao longo do tempo. Então o próximo passo seria colocar essa informação em modelo para estimar as tendências”, explicou Thiago Monteiro.

 

A continuidade dos estudos poderá ajudar a compreender como as mudanças climáticas e as alterações no regime de chuvas da Amazônia afetam a interação entre o rio e o oceano, especialmente os fluxos de dióxido de carbono.

 

Segundo Matheus Batista, a intensificação das chuvas em determinados períodos pode ampliar a influência da pluma, enquanto a redução das precipitações durante a estação seca tende a diminuir esse efeito.

 

“Já sabemos que o período chuvoso está ficando mais intenso, aumentando a influência da pluma, e no período seco está havendo menos chuva do que deveria, então há menos influência da pluma. E isso tem um impacto nos fluxos de CO2 e nas variáveis do sistema carbonato”, concluiu o pesquisador.

 

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Os resultados reforçam a importância do rio Amazonas para os processos ambientais do Atlântico e mostram como as mudanças no ciclo hidrológico da maior bacia hidrográfica do mundo podem repercutir na dinâmica química dos oceanos. 

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