Os papagaios têm verdadeiros “nomes vocais”, aprendidos socialmente e usados para manter a organização e a coesão do grupo
Papagaios selvagens atribuem sons exclusivos a cada um de seus filhotes, um comportamento que lembra, em vários aspectos, a forma como os humanos nomeiam seus bebês. A constatação faz parte de um estudo norte-americano publicado em julho de 2023 na revista científica Computational Biology.
De acordo com a pesquisa, esses sons não são aleatórios nem inatos. Eles funcionam como verdadeiros “nomes vocais”, aprendidos socialmente e utilizados para organizar a convivência e fortalecer a coesão dentro do grupo.
identificar esses padrões, os pesquisadores realizaram gravações contínuas desde a postura dos ovos, passando pela eclosão, até o crescimento dos filhotes no ninho. As vocalizações foram analisadas com softwares capazes de detectar variações acústicas sutis. Os resultados mostraram que cada filhote recebe um padrão sonoro próprio, repetido de forma consistente pelos pais.
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“O som não nasce com o filhote, ele é aprendido”, explica o professor de Biologia Victor Maciel. Em testes nos quais ovos foram transferidos para outros ninhos, os filhotes passaram a reproduzir os sons dos pais adotivos, e não dos biológicos, reforçando o caráter social do aprendizado.
Segundo Maciel, o reconhecimento do “nome vocal” ocorre muito cedo. Desde os primeiros dias de vida, os filhotes já respondem de maneira diferenciada ao chamado que lhes é direcionado.
“Existe um reconhecimento claro daquele padrão sonoro específico. Isso facilita a organização social, seja em grupos familiares pequenos ou em bandos maiores”, afirma.
Esse sistema reduz confusões em ninhos com vários filhotes e torna o cuidado parental mais eficiente. Para o professor de Biologia Alisson Pedrosa, a identificação individual traz vantagens evolutivas importantes.
“Esse ‘rótulo vocal’ permite direcionar alimento corretamente, responder com mais rapidez aos chamados e evitar erros que podem custar a sobrevivência do filhote”, explica.
Além de aumentar as chances de sobrevivência, o reconhecimento individual fortalece vínculos sociais, melhora a cooperação no grupo e contribui para a defesa contra predadores.
COMUNICAÇÃO INDIVIDUAL NO REINO ANIMAL
Os papagaios não são os únicos animais que utilizam sinais vocais individuais. Golfinhos têm assobios característicos, morcegos reconhecem os chamados de seus filhotes em colônias enormes, e elefantes emitem sons direcionados a indivíduos específicos. O que diferencia os papagaios é o alto grau de aprendizado envolvido nesse processo.
“O filhote aprende ativamente seu ‘nome’, transmitido socialmente, e não apenas determinado pela biologia”, destaca Pedrosa. Para os pesquisadores, esse comportamento ajuda a compreender como sistemas complexos de comunicação podem surgir.
“O som não expressa emoção nem estado físico, mas representa um indivíduo. Isso indica uma forma rudimentar de comunicação simbólica”, explica.
IMPACTO DO AMBIENTE E DA AÇÃO HUMANA
O estudo também aponta fatores que podem interferir nesse tipo de comunicação. Ruídos urbanos, por exemplo, podem mascarar os sons e levar a mudanças na frequência ou no ritmo dos “nomes vocais”.
Já o cativeiro e o isolamento social podem empobrecer o repertório sonoro ou prejudicar o aprendizado adequado, um alerta importante para ações de conservação e programas de reintrodução na natureza.
“A cada nova pesquisa, cresce o número de espécies que demonstram esse tipo de organização vocal”, afirma Maciel.
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Para a ciência, descobertas como essa colocam os papagaios ao lado de golfinhos, elefantes e grandes primatas em termos de complexidade social e cognitiva. No fim, dar nomes ou algo muito próximo disso não é exclusividade humana, mas uma estratégia poderosa moldada pela vida em sociedade.