O levantamento mostra que, mesmo após operações de desintrusão realizadas em 2025, comunidades indígenas e cidades vizinhas continuam enfrentando consequências profundas ligadas à atividade garimpeira.
Um estudo inédito divulgado pelo Instituto Mãe Crioula, em parceria com a Universidade do Estado do Pará (Uepa), apontou que a retirada de garimpeiros ilegais das terras indígenas Munduruku, no sudoeste do Pará, não foi suficiente para encerrar os impactos sociais, econômicos e ambientais provocados pela mineração clandestina na região. O levantamento mostra que, mesmo após operações de desintrusão realizadas em 2025, comunidades indígenas e cidades vizinhas continuam enfrentando consequências profundas ligadas à atividade garimpeira.
O relatório, intitulado “O Circuito Espacial do Garimpo Ilegal no Pós-Desintrusão”, será lançado oficialmente no próximo dia 11 de maio e analisa as mudanças ocorridas após a retirada dos invasores da Terra Indígena Munduruku, localizada no município de Jacareacanga. A pesquisa também avaliou os reflexos em Itaituba, cidade considerada um dos principais polos econômicos da região do Tapajós.
Segundo os pesquisadores, as operações realizadas pelo governo alteraram a dinâmica territorial da região, mas não solucionaram os problemas estruturais ligados ao garimpo ilegal. O estudo aponta que a atividade criou uma forte dependência econômica em diversos municípios amazônicos, fazendo com que grande parte do comércio e dos serviços locais passasse a depender diretamente da mineração clandestina.
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Após a retirada dos garimpeiros, comerciantes e moradores relataram forte queda no movimento econômico. Houve redução nas vendas, enfraquecimento do setor de serviços e diminuição da circulação de dinheiro nas cidades próximas às áreas afetadas. A pesquisa destaca que a mineração ilegal funciona como uma cadeia econômica complexa, envolvendo transporte, combustíveis, comércio e até sistemas financeiros informais, o que dificulta o combate definitivo à atividade.
Os pesquisadores também alertam que operações pontuais tendem a produzir apenas efeitos temporários. De acordo com o relatório, sem presença contínua do Estado e alternativas econômicas sustentáveis, há grande risco de reorganização do garimpo em outras áreas da Amazônia ou até mesmo retorno às regiões já desocupadas.
Outro ponto destacado pelo estudo são os danos ambientais persistentes deixados pela exploração ilegal. Entre os principais impactos observados estão assoreamento de rios, destruição de áreas florestais, contaminação da água e alterações nos cursos naturais dos rios utilizados pelas comunidades indígenas. Especialistas afirmam que os efeitos ambientais continuam mesmo após a interrupção das atividades de mineração.

Foto: Reprodução
A situação afeta diretamente os povos Munduruku, que dependem dos rios para transporte, alimentação e atividades cotidianas. Relatórios recentes também já haviam apontado altos índices de contaminaçãopor mercúrio entre indígenas da região do Tapajós, consequência direta do uso da substância no processo de extração ilegal de ouro.
O estudo reuniu ainda reivindicações apresentadas pelas próprias comunidades indígenas, que pedem maior investimento em segurança alimentar, educação, infraestrutura, geração de renda sustentável e preservação ambiental. Os pesquisadores defendem que os povos indígenas sejam protagonistas na construção de alternativas econômicas capazes de reduzir a dependência do garimpo.
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Para o geógrafo Aiala Colares de Oliveira Couto, coordenador da pesquisa, o garimpo ilegal atua como um agente de reorganização territorial e influencia simultaneamente aspectos sociais, ambientais e econômicos da Amazônia. O relatório recomenda ações permanentes de fiscalização, fortalecimento das políticas públicas e maior articulação entre governos federal, estadual e municipal para impedir a retomada da atividade clandestina.