Presidente americano pode anunciar início de negociação bilateral em sua viagem ao Golfo Pérsico, o que poderia indicar visão do republicano sobre batalha tecnológica fora da China
Os Estados Unidos estão considerando um possível afrouxamento das restrições às vendas da Nvidia, gigante americana de chips, para os Emirados Árabes Unidos (EAU), segundo pessoas familiarizadas com o assunto ouvidas pela agência Bloomberg, que disseram que o presidente Donald Trump pode anunciar o início dos trabalhos para um acordo bilateral sobre chips durante sua próxima viagem ao Golfo Pérsico.
Nada foi oficialmente decidido, disseram as fontes, enfatizando que o debate sobre as regras de comércio de semicondutores para os Emirados e outros países continua em andamento em Washington. Mas conversas sobre a modificação das restrições a chips de IA para os Emirados, em particular, têm ganhado força tanto no Departamento de Comércio quanto na Casa Branca, afirmaram as pessoas, que pediram anonimato para discutir conversas privadas.
Qualquer anúncio provavelmente não incluiria detalhes específicos sobre como mudaria o acesso dos Emirados aos chips, disseram as fontes. Mas um avanço rumo a um eventual acordo já seria uma vitória para o Estado do Golfo, cujas ambições em inteligência artificial correm o risco de serem limitadas pelas regras globais sobre chips anunciadas na última semana do mandato do presidente Joe Biden.
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Também daria um vislumbre de como Trump enxerga a política de IA para regiões fora da China, à medida que seu governo debate como lidar com a chamada "regra de difusão de IA", que impôs limites à exportação de chips de IA para os Emirados e outros cerca de 100 países.
As ações da Nvidia ampliaram os ganhos após a reportagem da Bloomberg ser publicada hohje, subindo mais de 5% em Nova York.
GIRO PELO ORIENTE MÉDIO
Trump deve visitar os Emirados Árabes Unidos como parte de uma viagem mais ampla ao Oriente Médio entre 13 e 16 de maio — o que significa que estará na região em 15 de maio, data em que as empresas devem começar a cumprir a regra de difusão de IA. Nessa viagem, o presidente pretende enfatizar que os Emirados são um aliado natural dos Estados Unidos e que fizeram grandes investimentos no país, segundo as fontes.
O presidente questionou recentemente por que os EUA não podem vender chips a um país autorizado a comprar caças F-35, disse uma das fontes, embora o emirado ainda esteja em negociações com os EUA sobre os termos dessas aquisições.
Os comentários de Trump vieram após uma reunião com o xeque Tahnoon bin Zayed Al Nahyan, conselheiro de Segurança Nacional dos Emirados e irmão do presidente do país, que visitou Washington em março em parte para pressionar por maior acesso a chips da Nvidia.
Porta-vozes da Casa Branca e do Departamento de Comércio não responderam imediatamente aos pedidos de comentário, enquanto representantes da Nvidia e da embaixada dos Emirados recusaram-se a comentar.
Durante a visita de Sheikh Tahnoon, os Emirados anunciaram planos de investir até US$ 1,4 trilhão na próxima década em energia, semicondutores, infraestrutura de IA e manufatura nos Estados Unidos. Essa promessa acelerou as conversas sobre a modificação das restrições aos chips para os Emirados, disseram fontes familiarizadas com o tema.
Semanas depois, a Silver Lake — que tem o fundo soberano Mubadala Investment, sediado em Abu Dhabi, como investidor — comprou participação majoritária na Altera, da fabricante americana de chips Intel, o que também ajudou a impulsionar a causa dos Emirados, segundo um funcionário do governo dos EUA.
Investimentos adicionais liderados pelos Emirados no setor tecnológico americano são esperados nos próximos meses, segundo fontes. Como parte das negociações mais amplas sobre acesso a chips, disseram, alguns membros do governo Trump cogitaram buscar um investimento maior dos Emirados na Intel, que passa por dificuldades e está no centro do esforço do governo dos EUA para produzir mais semicondutores em solo americano.
As discussões do governo sobre incluir a Intel em um possível acordo com os Emirados continuam internas e ainda estão em estágios muito iniciais, disseram as fontes. Um porta-voz da Mubadala afirmou não estar ciente de quaisquer discussões sobre a Intel, e a própria Intel recusou-se a comentar.
LÍDER DA NVIDIA FEZ APELO A TRUMP
Ontem, o CEO da Nvidia, Jensen Huang, pediu ao governo Trump que mudasse os regulamentos sobre exportação de tecnologia de IA para ajudar as empresas americanas a aproveitar oportunidades no exterior, onde a competição com a China está se intensificando.
— Não sei como será a nova regra de difusão, mas seja como for, ela realmente precisa reconhecer que o mundo mudou fundamentalmente desde que a regra anterior foi publicada — disse Huang a repórteres em Washington. A Nvidia tem argumentado consistentemente que regras rígidas de exportação de chips dos EUA correm o risco de empurrar outros países em direção à tecnologia chinesa.
RESTRIÇÃO VEM DO GOVERNO BIDEN
Desde 2023, o governo dos EUA exige uma licença para exportar chips da Nvidia para os Emirados Árabes Unidos e outros países do Golfo, devido a preocupações de que o hardware possa ser desviado para a China.
O país do Oriente Médio vem tentando há tempos aliviar essas preocupações, incluindo uma promessa da gigante de IA de Abu Dhabi, G42, de se desfazer de ativos ligados à Huawei Technologies Co., da China — o que abriu caminho para uma parceria de US$ 1,5 bilhão com a Microsoft Corp. anunciada ainda durante o governo Biden. A Microsoft tem defendido publicamente que o governo Trump alivie os controles de exportação de chips para os Emirados, entre outros “amigos dos Estados Unidos”.
Autoridades dos Emirados também estavam envolvidas em negociações avançadas com o governo Biden para alcançar um acordo bilateral sobre uso de IA, segundo pessoas familiarizadas com essas conversas — o que poderia ter ajudado empresas dos Emirados a contornar o limite nacional de acesso a chips em troca de compromissos de segurança.
Esse tipo de exceção também exige uma solicitação específica por empresa. Mas os Emirados abandonaram essas negociações após a vitória de Trump na eleição presidencial de novembro, disseram as fontes, antes que a regra de difusão de IA fosse formalmente anunciada.
Agora, os principais líderes do governo e da indústria dos Emirados estão otimistas com suas perspectivas sob a nova administração. Os Emirados não são vistos como “apenas mais um ator”, disse Omar Al Olama, ministro de IA e economia digital do país, em entrevista recente, apontando para parcerias entre empresas americanas e emiradenses. O chefe de uma dessas empresas, Peng Xiao, da G42, disse que os Emirados estão fazendo “progresso muito bom e tangível” para garantir semicondutores avançados dos EUA.
Ainda assim, não está claro qual será a forma desse avanço. Autoridades do governo Trump vêm considerando um conjunto de mudanças na regra de difusão de IA, informou a Bloomberg News em março, incluindo o fim do sistema por camadas, substituído por uma exigência de licença global mais ampla. Isso poderia abrir caminho para que países individuais, incluindo os Emirados, negociassem seus próprios acordos sobre acesso a chips — que, por sua vez, podem ser extremamente complexos.
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Enquanto isso, os embarques de chips para o país continuam exigindo aprovações constantes de autoridades dos EUA, que têm visões diferentes sobre as implicações de segurança nacional da aposta dos Emirados em IA.
Fonte: O Globo