Em carta a uma deputada norte-americana, Departamento de Estado defendeu medidas contra o ministro do STF e a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas; documento foi enviado em meio a questionamentos sobre possível interfer
O governo dos Estados Unidos, sob a administração do presidente Donald Trump, afirmou apoiar o direito dos brasileiros de escolher seus representantes por meio de eleições livres e justas. A declaração consta em uma carta enviada a uma congressista norte-americana e assinada na quinta-feira (15), na qual o Departamento de Estado também justificou as sanções aplicadas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e a classificação das facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
O documento, obtido pelo portal Metrópoles, foi assinado por Katherine Bowles, secretária-assistente do Bureau de Assuntos Legislativos do Departamento de Estado, e encaminhado à deputada Delia C. Ramirez.
A correspondência responde a uma manifestação enviada em setembro por parlamentares norte-americanos ao secretário de Estado, Marco Rubio. Na ocasião, os congressistas questionaram a política de Washington em relação ao Brasil às vésperas das eleições presidenciais e cobraram garantias de que o governo Trump respeitaria a decisão dos eleitores brasileiros.
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Na resposta, o Departamento de Estado declarou que pretende manter o diálogo com a população brasileira, o setor privado e o governo eleito para promover a segurança, o comércio entre os dois países, os investimentos e a prosperidade bilateral.
“Os Estados Unidos apoiam o direito do povo brasileiro a um processo eleitoral livre e justo”, afirma o texto.
A pasta também informou que mantém contatos regulares com governos e representantes da sociedade civil do Hemisfério Ocidental para discutir temas como governança democrática, independência judicial e integridade eleitoral. Segundo a carta, essas conversas ocorrem em fóruns multilaterais, como a Organização dos Estados Americanos (OEA), e por meio de relações diplomáticas bilaterais.
PARLAMENTARES QUESTIONAM POSSÍVEL INTERFERÊNCIA DOS EUA
A manifestação do Departamento de Estado ocorre após uma série de cobranças de parlamentares democratas sobre a atuação da Casa Branca no Brasil durante o período eleitoral.
Em 24 de setembro, 31 deputados norte-americanos acusaram o governo Trump de pressionar instituições brasileiras por meio de medidas econômicas, políticas e diplomáticas. Os parlamentares também pediram um compromisso explícito de respeito ao resultado das urnas.
Cinco dias depois, três senadores democratas solicitaram garantias de que Washington aceitaria a decisão dos eleitores brasileiros. Em 6 de outubro, outros 12 deputados voltaram a criticar a atuação da Casa Branca e alertaram para os possíveis impactos da situação nas relações entre os dois países.
Na carta mais recente, o Departamento de Estado reiterou a intenção de dialogar com o governo eleito, mas não detalhou quais medidas seriam adotadas para assegurar o respeito ao resultado eleitoral.
EUA JUSTIFICAM MEDIDAS CONTRA ALEXANDRE DE MORAES
Outro ponto abordado na correspondência foi a aplicação de sanções contra Alexandre de Moraes, em julho de 2025. Na ocasião, o governo norte-americano recorreu à Lei Global Magnitsky de Responsabilização por Violações dos Direitos Humanos, instrumento utilizado pelos Estados Unidos para impor restrições a pessoas acusadas de envolvimento em graves violações de direitos humanos ou corrupção.
Segundo a carta, as medidas foram fundamentadas em evidências que, na avaliação de Washington, indicariam graves violações de direitos humanos. O documento também atribuiu a Moraes supostos abusos no exercício do cargo, citando decisões relacionadas a prisões preventivas consideradas injustificadas pelo governo norte-americano e restrições à liberdade de expressão.
Moraes, no entanto, foi retirado da lista de sancionados pela Lei Magnitsky em dezembro de 2025.
PCC E COMANDO VERMELHO SÃO CITADOS COMO AMEAÇA REGIONAL
A carta também apresentou justificativas para a classificação do PCC e do Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês), anunciada em maio de 2026. As duas facções também foram enquadradas pelos Estados Unidos como Terroristas Globais Especialmente Designados.
De acordo com o Departamento de Estado, a decisão levou em consideração a violência atribuída aos grupos, o número de integrantes e a participação em ataques contra agentes de segurança, autoridades e civis brasileiros.
A correspondência afirma ainda que as organizações mantêm redes criminosas com atuação que se estende aos Estados Unidos e que, na avaliação do governo norte-americano, representam riscos à segurança do país e da região.
“Essa designação foi realizada com base nos méritos da ameaça que essas organizações representam para a segurança dos Estados Unidos e da região”, diz o documento.
O Departamento de Estado acrescentou que a medida integra a estratégia da administração Trump de combater cartéis e organizações criminosas no continente americano.
A classificação, contudo, decorre da legislação dos Estados Unidos e não transforma automaticamente o PCC e o Comando Vermelho em organizações terroristas perante a legislação brasileira. Da mesma forma, a decisão não representa, por si só, uma autorização para operações militares em território nacional.
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A carta reúne, assim, o posicionamento oficial de Washington sobre a integridade eleitoral brasileira, as medidas adotadas contra Moraes e a estratégia norte-americana de combate às organizações criminosas, em meio ao debate político sobre os limites da atuação dos Estados Unidos nas questões internas do Brasil.