Em meio à retração do PIB americano e às preocupações sobre os efeitos da guerra comercial de Donald Trump, taxa deve ficar inalterada. Mas investidores estarão atentos ao comunicado e às declarações do presidente Jerome Powell
O Fed, banco central americano, deve manter a pausa nos cortes de juros na quarta-feira, em meio a preocupações de que as tarifas do presidente Donald Trump desencadeiem novas pressões inflacionárias, ao mesmo tempo em que prejudiquem o crescimento — uma combinação delicada que pode levar a decisões difíceis para o banco central.
Uma decisão de manter as taxas significaria que os juros continuariam entre 4,25% e 4,5%, patamar alcançado em dezembro após uma série de cortes na segunda metade de 2024.
Por enquanto, os dirigentes do Fed estão em modo de espera. Eles acompanham de perto os dados que chegam em busca de sinais de que os preços ao consumidor voltaram a subir, após anos de combate à inflação, ou de que o mercado de trabalho, até então sólido, começou a enfraquecer. A economia americana sofreu uma leve retração no primeiro trimestre, em resultado pior do que o estimado pelo mercado.
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O que eles precisam é de mais clareza sobre o que, exatamente, Trump pretende para a economia após uma enxurrada de anúncios de tarifas, cortes de gastos do governo e deportações. O Fed divulgará sua mais recente declaração de política monetária na quarta-feira às 15h, Hora de Brasília. Jerome Powell, presidente do Fed, dará uma entrevista coletiva logo em seguida.
As tarifas de Trump devem elevar os preços ao consumidor, mas a questão é se isso será um aumento pontual ou se dará origem a um problema inflacionário persistente. A resposta determinará quão cauteloso o Fed será ao considerar novos cortes de juros.
Na última reunião, em março, Powell disse a jornalistas que a expectativa principal do Fed era de que a inflação provocada pelas tarifas fosse “transitória”, ressuscitando um termo que ganhou notoriedade após o Fed e outros analistas o usarem para descrever, inicialmente, as pressões inflacionárias durante a pandemia — que acabaram se transformando na pior disparada inflacionária em décadas.
Mas isso foi antes de Trump surpreender o mundo com tarifas muito mais severas do que o esperado. As tarifas foram temporariamente reduzidas enquanto Trump dava tempo para que os países fechassem acordos comerciais antes do prazo final de julho.
Ainda assim, permanece em vigor uma tarifa universal de 10%, além de tarifas adicionais sobre aço, alumínio e automóveis. O presidente também impôs uma tarifa mínima de 145% sobre produtos chineses. Desde então, Powell mudou o tom, demonstrando muito mais atenção aos riscos de que os efeitos inflacionários não desapareçam rapidamente.
— Nosso dever é manter bem ancoradas as expectativas de inflação no longo prazo e garantir que um aumento pontual de preços não se torne um problema contínuo de inflação — disse ele em um discurso no mês passado.
Na quarta-feira, é provável que ele enfrente perguntas sobre a avaliação mais recente do Fed sobre a inflação, que desacelerou mais do que o esperado em março.
Até agora, as medidas de expectativa de inflação baseadas no mercado — às quais o Fed dá mais atenção — sugerem que a inflação continuará contida após um salto inicial. Isso está alinhado com a previsão de Christopher Waller, um dos diretores do Fed e um dos defensores mais enfáticos da ideia de que as tarifas causarão apenas um aumento temporário da inflação.Ainda assim, até ele reconheceu que não será fácil ignorar o aumento dos preços quando eles se materializarem.
— Vai ser preciso coragem para encarar essas altas de preços por tarifas acreditando que elas são transitórias — disse ele em uma entrevista no mês passado.
Com as tarifas de Trump potencialmente alimentando a inflação, o limite para que o banco central reduza os juros está mais alto do que estaria normalmente. Os dirigentes sinalizaram que não pretendem retomar de forma proativa os cortes nas taxas de juros, o que marca uma mudança em relação à forma como agiram diante de perspectivas de recessão no passado.
Em setembro passado, o Fed, na prática, adotou uma postura preventiva diante de um possível enfraquecimento do mercado de trabalho, cortando os juros em meio ponto percentual. E, em 2019, reduziu os juros três vezes quando a guerra comercial global de Trump com a China, em seu primeiro mandato, começou a afetar a atividade empresarial e a confiança.Em ambas as ocasiões, o risco de inflação era muito menor. O Fed não tem esse luxo agora.
— Prefiro ser lenta e seguir na direção certa do que agir rápido e ir na direção errada — disse Beth Hammack, presidente do Federal Reserve de Cleveland.
Ainda não está claro exatamente o que levará o Fed a voltar a cortar os juros. De forma geral, os dirigentes provavelmente precisarão ver evidências concretas de que o mercado de trabalho está começando a ceder. Se o crescimento mensal de empregos parar e os cortes de postos aumentarem, isso fortaleceria a convicção do Fed de que é possível reduzir os juros sem reacender a inflação.
Esperar que esses sinais apareçam nos dados pode significar que o Fed agiu tarde demais, exigindo depois cortes mais agressivos. Powell pode detalhar mais sobre o que, exatamente, o Fed precisa ver para voltar a cortar os juros e como pretende evitar um erro de política monetária.
Comparadas à situação atual, as decisões anteriores de política pareciam relativamente simples. Quando a inflação disparou e o mercado de trabalho sobreaqueceu após a pandemia, não houve muita hesitação em subir fortemente os juros assim que o processo começou.
Em setembro do ano passado, quando a inflação recuava e o mercado de trabalho esfriava, os dirigentes reconheceram a necessidade de reduzir os juros. Embora houvesse debate sobre a magnitude do corte, a direção estava clara.
Mas a agenda econômica de Trump — com tarifas abrangentes, cortes de gastos e deportações em massa — corre o risco de aquecer a inflação e, ao mesmo tempo, desacelerar o crescimento. Uma combinação terrível para o banco central, que essencialmente conta com uma única ferramenta grosseira para conduzir a economia: subir ou cortar juros.
Powell alertou para a possibilidade de que os objetivos do Fed de manter a inflação baixa e estável e garantir um mercado de trabalho saudável entrem em conflito. Tal situação, disse ele, exigiria um “julgamento muito difícil” por parte do banco central.
“Se isso ocorrer, consideraremos o quão distante a economia está de cada um dos objetivos e os diferentes horizontes de tempo em que essas lacunas seriam superadas”, afirmou. O que ele não especificou foi como o Fed fará essa avaliação — algo que provavelmente será abordado na entrevista coletiva.
Desde a última reunião do Fed, os mercados financeiros oscilaram violentamente enquanto Wall Street lutava para digerir os diversos desdobramentos da política comercial de Trump.
Em vários momentos do mês passado, correlações típicas deixaram de funcionar, sinalizando que os mercados financeiros estavam sob tensão. O desenvolvimento mais preocupante foi o aumento dos rendimentos dos títulos do governo dos EUA, enquanto o dólar enfraquecia e as ações caíam — em geral, títulos do Tesouro e o dólar funcionam como refúgios em tempos de turbulência.
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Os mercados se estabilizaram nas últimas semanas, mas a intensidade das movimentações anteriores ainda deixa os investidores em alerta. Na época, autoridades do Fed sinalizaram que estavam monitorando de perto a situação e, de forma geral, concluíram que os mercados financeiros ainda funcionavam normalmente. No auge da volatilidade, Susan Collins, presidente do Fed de Boston, disse que o banco central estava “absolutamente” pronto para intervir, se necessário. Powell provavelmente será questionado sobre essas oscilações recentes e sobre em que condições o Fed interviria caso a volatilidade retornasse.
Fonte:O Globo