*Por Plínio César A. Coêlho - Existe uma parte da história da ascensão de Adolf Hitler que muitas vezes é esquecida: o nazismo não chegou ao poder apoiado apenas por militares, empresários, nacionalistas ou fanáticos políticos. Hitler também encontrou apoio entre setores importantes do cristianismo alemão, inclusive entre protestantes — chamados na Alemanha de evangelisch, isto é, evangélicos.
Isso não é opinião nem interpretação ideológica. É história documentada.
Quando Hitler chegou ao poder, em 1933, a Alemanha tinha cerca de 60 milhões de habitantes e era esmagadoramente cristã. Aproximadamente 40 milhões eram protestantes e 20 milhões católicos. Segundo o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, muitos cristãos alemães receberam favoravelmente a ascensão do nazismo, influenciados pelo nacionalismo, pelo anticomunismo, pela rejeição à República de Weimar e pelo ressentimento decorrente da derrota alemã na Primeira Guerra Mundial.
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Entre os protestantes surgiu um movimento particularmente importante: os Deutsche Christen, ou “Cristãos Alemães”. Não se tratava simplesmente de alguns fiéis isolados simpatizando com Hitler. Era um movimento organizado dentro da Igreja Evangélica Alemã que procurava aproximar o cristianismo da ideologia nacional-socialista.
Os “Cristãos Alemães” abraçaram aspectos nacionalistas e raciais da ideologia nazista e defenderam uma versão nazificada do cristianismo. Retratavam Jesus como ariano, negavam sua origem judaica, rejeitavam a autoridade do Antigo Testamento e procuravam eliminar do cristianismo aquilo que chamavam de “elementos judaicos”. Também apoiavam a exclusão de pastores considerados não arianos.
Hitler compreendeu perfeitamente a força política da religião. Em 1933, apoiou essa facção radical dentro das igrejas protestantes. O próprio programa do Partido Nazista utilizava a expressão “cristianismo positivo”, procurando apresentar o movimento como defensor dos valores cristãos e da moral alemã, ao mesmo tempo que alimentava o antissemitismo, o nacionalismo racial e o combate ao comunismo.
Para muitos religiosos alemães, o medo do comunismo e a promessa de restauração da ordem nacional falaram mais alto do que os sinais autoritários que já estavam diante deles.
A história do pastor luterano Martin Niemöller é particularmente reveladora. Mais tarde ele se tornaria um dos símbolos da resistência cristã ao nazismo e passaria anos em campos de concentração. Antes disso, porém, Niemöller recebeu com entusiasmo a chegada de Hitler ao poder e votou no Partido Nazista nas eleições parlamentares de março de 1933. Depois rompeu com o regime, sobretudo quando percebeu a tentativa nazista de controlar as igrejas.
E é exatamente por isso que também é necessário fazer justiça à história: nem todos os evangélicos apoiaram Hitler.
A chamada Igreja Confessante surgiu em oposição aos “Cristãos Alemães” e à tentativa de submissão das igrejas protestantes ao Estado nazista. Entre seus nomes mais conhecidos estava o teólogo Dietrich Bonhoeffer, que participou da resistência contra Hitler e foi executado pelo regime em 1945. Houve pastores, padres e cristãos que denunciaram perseguições, protegeram judeus e pagaram com a liberdade ou com a própria vida.
Mas essa resistência não apaga o outro lado da história. O próprio Museu Memorial do Holocausto registra que a maioria dos líderes cristãos alemães recebeu favoravelmente a ascensão do nazismo em 1933 e que alguns dirigentes do movimento “Cristãos Alemães” apoiaram entusiasticamente o regime nazista. A oposição pública às perseguições e ao antissemitismo foi minoritária.
A experiência alemã deixa uma advertência que continua atual: ser religioso não imuniza ninguém contra o autoritarismo. Uma pessoa pode carregar uma Bíblia, falar permanentemente em Deus, família e moralidade e, ainda assim, apoiar um projeto político profundamente autoritário.
Hitler não apareceu diante da sociedade alemã anunciando desde o primeiro dia tudo aquilo em que seu regime se transformaria. Ele explorou medos, ressentimentos, crises econômicas, nacionalismo, preconceitos e inimigos políticos. Apresentou-se como restaurador da ordem e defensor da Alemanha contra aqueles que apontava como responsáveis pela decadência nacional.
E encontrou religiosos dispostos a acompanhá-lo.
A história dos “Cristãos Alemães” mostra como a fé pode ser instrumentalizada politicamente quando o púlpito deixa de exercer consciência crítica e passa a funcionar como instrumento de um projeto de poder.
Por isso, talvez a principal lição daquela tragédia seja simples: não basta perguntar se um político fala em Deus. É preciso perguntar o que ele faz em nome de Deus.
Porque a História já demonstrou que até um projeto autoritário pode encontrar quem o abençoe.
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*Plinio Cesar Albuquerque Coêlho é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). É mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando na Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), em Buenos Aires.