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Hospital Colônia de Barbacena encerra atividades após um século marcado por violações e sofrimento
Foto: Divulgação

Símbolo dos abusos em manicômios brasileiros, instituição em Minas Gerais fecha as portas após décadas de denúncias e histórias de abandono.

 O histórico Hospital Colônia de Barbacena, conhecido nacionalmente como a “Cidade dos Loucos”, terá suas atividades encerradas oficialmente na próxima segunda-feira (25), colocando fim a uma das páginas mais sombrias da história da saúde mental no Brasil.

 

A medida marca a transferência dos últimos 14 moradores que ainda viviam no local, muitos deles internados desde a infância e afastados das famílias há décadas. Eles passarão a morar em residências terapêuticas em Barbacena, com acompanhamento médico e assistência contínua.

 

Segundo a Secretaria de Saúde de Minas Gerais, os pacientes permaneceram no antigo complexo devido à necessidade de cuidados especializados e limitações físicas que dificultavam a mudança para outros espaços anteriormente. Mesmo após as reformas humanizadas implementadas nas últimas décadas, o endereço continuava associado ao passado manicomial brasileiro.

 

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O secretário estadual de Saúde, Fábio Baccheretti, afirmou que a permanência dessas pessoas no local refletia uma visão histórica equivocada de que o cuidado prestado ali seria suficiente, mesmo dentro de um ambiente marcado pela memória da exclusão.

 

Ao longo do século XX, o hospital se tornou símbolo de abandono, violência e violações de direitos humanos. Milhares de pessoas consideradas “indesejadas” pela sociedade eram enviadas para a instituição, muitas vezes sem diagnóstico psiquiátrico. Homossexuais, alcoólatras, mulheres consideradas rebeldes, mães solteiras, pessoas pobres e indivíduos com deficiência eram internados compulsoriamente e esquecidos no local.

 

As denúncias sobre as condições desumanas começaram a ganhar repercussão nacional ainda nos anos 1960, quando reportagens mostraram pacientes nus, desorientados e vivendo em extrema precariedade. Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia comparou o hospital a um campo de concentração após visitar a unidade.

 

Na época, o hospital operava com superlotação extrema, poucos médicos e uso massivo de medicamentos psiquiátricos. Eletrochoques e lobotomias também eram aplicados em pacientes considerados mais graves.

 

Estima-se que cerca de 60 mil pessoas tenham morrido no local até os anos 1980, vítimas de doenças, fome, frio, abandono e maus-tratos. A história voltou ao centro do debate nacional após o lançamento do livro Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, que revelou detalhes do funcionamento do manicômio e o tratamento desumano dado aos internos.

 

A obra também expôs que corpos de pacientes mortos no hospital foram vendidos para faculdades de medicina de diferentes estados brasileiros para estudos anatômicos. Neste ano, a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Federal de Juiz de Fora pediram desculpas públicas pela utilização dos cadáveres.

 

Especialistas avaliam que o fechamento definitivo do Hospital Colônia representa um marco simbólico da luta antimanicomial no Brasil e reforça a necessidade de políticas voltadas à inclusão, ao cuidado humanizado e à garantia de direitos das pessoas com transtornos mentais.

 

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Mesmo após décadas de denúncias e reformas psiquiátricas, o caso de Barbacena segue como um dos maiores exemplos de exclusão social institucionalizada da história brasileira.

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