Relatório mundial de 2026 aponta infiltração de facções no Estado, critica modelo policial violento e defende investigações baseadas em inteligência e dados
O Brasil precisa rever com urgência sua estratégia de enfrentamento ao crime organizado, que já apresenta sinais claros de infiltração dentro do próprio Estado. O alerta é da organização internacional Human Rights Watch (HRW), que analisou as políticas de segurança pública do país em seu Relatório Mundial 2026, divulgado nesta quarta-feira (4), com avaliações sobre direitos humanos em mais de cem países.
No capítulo dedicado ao Brasil, a entidade defende uma reformulação profunda das políticas de segurança, com foco no desmantelamento das facções criminosas e na proteção dos direitos da população e dos próprios agentes de segurança. Segundo a HRW, a atuação do crime organizado vai além das ruas e alcança estruturas do poder público.
Em entrevista ao g1, o diretor da Human Rights Watch no Brasil, César Muñoz, afirmou ter ouvido de um promotor responsável por investigações contra facções que, em todos os casos analisados, havia envolvimento de policiais. Para ele, essa cooptação de agentes públicos é uma das faces mais graves do problema.
Veja também

Mega-Sena acumula e próximo prêmio pode chegar a R$ 144 milhões
Jovem de 23 anos é encontrada morta dentro de casa; companheiro é suspeito e está foragido
“As facções criminosas buscam proteção para suas atividades ilícitas por meio da corrupção de agentes do Estado. Em alguns casos, isso também envolve políticos, sobretudo em nível local. É um fenômeno extremamente perigoso, pois corrói as instituições por dentro”, afirmou Muñoz.
O relatório defende que o país passe a adotar investigações aprofundadas e baseadas em inteligência, capazes de identificar vínculos entre criminosos e integrantes do poder público. A HRW sustenta que ações pontuais e operações de caráter militar não são suficientes para enfrentar estruturas criminosas complexas.
ENTRE AS RECOMENDAÇÕES APRESENTADAS PELA ORGANIZAÇÃO ESTÃO:
Políticas de segurança formuladas com base em ciência e dados;
Prioridade à investigação policial e à inteligência financeira;
Proteção efetiva dos direitos humanos da população e dos policiais;
Garantia de independência das perícias em todo o país;
Maior coordenação entre órgãos federais e estaduais no combate ao tráfico de armas, à lavagem de dinheiro e às fontes de financiamento das facções.
Investigações recentes citadas no relatório revelaram a expansão do Primeiro Comando da Capital (PCC) para setores estratégicos da economia, como transporte público e mercado de combustíveis, além do uso de fundos de investimento sediados na Faria Lima para lavar dinheiro. Também foram identificados esquemas de fraude em contratos de prefeituras.
Um dos casos mais emblemáticos ocorreu no fim de 2025, quando a Justiça Militar condenou 11 policiais militares por prestarem segurança clandestina a Antonio Vinícius Gritzbach, delator do PCC executado a tiros no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. O episódio expôs conexões entre o crime organizado e agentes das polícias Militar e Civil.
VIOLÊNCIA PREOCUPA POPULAÇÃO
A segurança pública segue como uma das maiores preocupações da sociedade brasileira. Pesquisa Ipsos-Ipec divulgada nesta semana aponta que 41% dos brasileiros consideram crime e violência o principal problema do país.
O tema ganhou ainda mais destaque no fim de 2025, após uma megaoperação policial contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, que resultou em 121 mortes, incluindo quatro policiais. Em resposta ao cenário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou ao Congresso uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, que amplia o papel do governo federal, além de um projeto de lei que endurece penas para integrantes de facções criminosas. Ambas as propostas ainda estão em debate.
Para a HRW, a centralidade do tema deve influenciar diretamente o debate eleitoral. “Defendemos propostas sérias, fundamentadas em evidências, que desmontem os grupos criminosos sem violar direitos”, afirma Muñoz.
CRÍTICAS AO MODELO POLICIAL
O relatório também critica o modelo de atuação das forças de segurança no país. Dados do Ministério da Justiça mostram que policiais foram responsáveis por 6.519 mortes em 2025, um aumento de 4,5% em relação ao ano anterior.
Segundo Muñoz, o uso recorrente de operações com lógica militar em comunidades pobres tem se mostrado ineficaz e perigoso. “Esse modelo aumenta a violência, gera insegurança e coloca em risco tanto moradores quanto os próprios policiais”, avalia.
A HRW defende que o Brasil adote políticas capazes de reduzir a letalidade policial e proteger efetivamente os direitos humanos.
OUTROS DESTAQUES DO RELATÓRIO
Além da segurança pública, o relatório da Human Rights Watch sobre o Brasil em 2025 aborda:
A queda no número de homicídios, acompanhada do aumento de mortes provocadas por policiais;
O fato de pessoas negras terem três vezes e meia mais chances de serem vítimas de violência letal do que pessoas brancas;
A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por conspiração para permanecer no poder após as eleições de 2022;
Fraudes no INSS que superam R$ 6 bilhões;
Avanços na proteção ambiental, apesar da manutenção de planos de expansão dos combustíveis fósseis;
Investigações sobre emendas parlamentares por falta de transparência;
Decisão do STF que ampliou a aplicação da Lei Maria da Penha a casais do mesmo sexo e mulheres trans;
Criação de legislação para proteção de crianças em ambientes digitais;
A superlotação do sistema prisional, que opera 35% acima da capacidade, com mais de 674 mil pessoas presas.
CENÁRIO INTERNACIONAL
No panorama global, a Human Rights Watch alerta para um avanço autoritário no mundo. A ONG afirma que o novo mandato de Donald Trump representa riscos aos direitos humanos e destaca líderes como Vladimir Putin e Xi Jinping como ameaças à ordem democrática internacional. Segundo o relatório, cerca de 72% da população mundial vive atualmente sob regimes autoritários.
A organização defende a formação de alianças globais para conter esse avanço e reforçar a proteção dos direitos humanos.
Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no Facebook, Twitter e no Instagram.