Em seminário MEC/Unesco, especialistas, educadores e gestores discutem diretrizes para o uso responsável da inteligência artificial nas escolas brasileiras
Longe de se tratar de uma discussão sobre o futuro, a presença da inteligência artificial na educação brasileira é cada vez mais evidente, com o reconhecimento de que a “onda é muito rápida” e o tempo para as transformações é curto. Nesse cenário, o MEC (Ministério da Educação) e a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) realizam, nesta quinta e sexta-feira, em Brasília (DF) o seminário IA na educação básica: construindo referenciais nacionais, que reúne especialistas de universidades, diferentes esferas de governo e da sociedade civil.
Durante a mesa de abertura e os dois painéis seguintes, foi ressaltado que professores e estudantes permanecem no centro do processo educacional, mesmo com a crescente integração da tecnologia. A inteligência artificial ainda é considerada como uma ferramenta com potencial para apoiar professores no ensino e na gestão dos processos de aprendizagem.
No entanto, esta perspectiva é acompanhada de uma cautela significativa, reconhecendo “enormes riscos” e “grandes desafios”. “É fundamental salvaguardar os direitos dos professores e garantir condições de trabalho adequadas para eles no contexto do crescente uso da inteligência artificial no sistema educacional, no local de trabalho e na sociedade em geral”, disse Rebeca Otero, coordenadora de Educação da Unesco no Brasil.
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O evento também marcou o lançamento de duas publicações em português: o ”Marco referencial de competências em IA para professores” e o ”Marco referencial de competências em IA para estudantes”. Esses documentos trazem orientações para preparar os estudantes a se tornarem cocriadores ativos de IA e futuros líderes capazes de moldar novas iterações da tecnologia e definir sua relação com a sociedade.
Ao mesmo tempo, fez um alerta. “Os professores precisam urgentemente ser capacitados para entender melhor as dimensões técnicas, éticas e pedagógicas da inteligência artificial. A rápida ascensão dos sistemas de inteligência artificial está gerando profundas implicações para o ensino e para a aprendizagem, particularmente no que diz respeito ao papel dos professores e às competências necessárias para navegar no cenário tecnológico em evolução. O uso da IA na educação está levantando questões fundamentais sobre a autonomia do professor e sua capacidade de determinar como e quando fazer uso criterioso dessa tecnologia”.

Outros, como Manuel Palácios, presidente do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), expressaram a urgência e a necessidade de cautela proativa no processo. Ele mencionou a experiência do Pisa (avaliação internacional que mede o desempenho de estudantes de 15 anos) deste ano, que fornecerá resultados sobre letramento digital. Além disso, mencionou que a IA oferece a oportunidade de organizar um vasto conjunto de informações de propostas de avaliação já executadas, que historicamente eram pouco padronizadas, permitindo “análise dessa trajetória muito grande e com isso organização e relançamento das nossas propostas”. E defendeu o uso de tais recursos ao explicar que, “para a elaboração de testes, a inteligência artificial ajuda como uma ferramenta de suporte muito significativa e tem que ser incorporada”.
a IA. Israel Batista, integrante do CNE (Conselho Nacional de Educação), lembrou como experiências anteriores, especialmente a do uso do celular nas escolas, demonstraram que a ausência de planejamento e diretrizes resultou em problemas como desatenção, hiperexposição a telas e conflitos, ao invés de benefícios. “Estamos arcando com o ônus dos celulares porque não fomos intencionais: eles passaram a incomodar a professora, com o WhatsApp tocando a toda hora. Foi por isso que não obtivemos o bônus”, disse.

Fotos: Reprodução
Para garantir uma implementação responsável, a formação de professores é vista como uma necessidade urgente, capacitando-os a compreender as dimensões técnicas, éticas e pedagógicas da inteligência artificial. Segundo Evânio Antônio de Araújo Júnior, secretário de Gestão da Informação, Inovação e Avaliação de Políticas Educacionais do MEC, no âmbito das políticas públicas há uma estratégia para a definição de parâmetros nessa discussão, que ele atribui a um esforço de “retomada do controle do tema da tecnologia na educação por parte do poder público”. Esse movimento busca evitar que a tecnologia seja incorporada nas escolas “sem mediação” e que a lógica de mercado prevaleça sobre a necessidade de inclusão e equidade.
A secretaria de educação básica, Katia Schweickardt, também colocou a escola como um lugar privilegiado para o debate e conscientização da IA, em particular da cidadania digital. Ela lembrou que a rede do Piauí, que leva disciplina de IA para estudantes do 9º ano do ensino fundamental e para o ensino médio. No entanto, ela destacou o avanço de oito pontos percentuais na alfabetização de crianças, resultado que mostrou a Katia que só faz sentido investir em tecnologias como a IA quando se dá prioridade à base da aprendizagem e à qualidade de vida: “Adiantava ter a disciplina lá se eles não estão cuidando de onde isso vai vir?
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”Em seguida, João Brant, secretário de políticas digitais da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, foi na mesma linha e também reforçou que a cautela não pode ser percebida como medo e avalia que um dos principais riscos da IA é a uniformização e a perda das singularidades e da diversidade da sociedade, pois tais sistemas tendem a basear decisões em médias gerais e tendências de escolhas anteriores, o que pode “domesticar” nossa capacidade de interpretação e avanço como espécie humana.
Fonte: Porvir