Com mais de 3 milhões de pedidos pendentes, sistema não diferencia urgência clínica e expõe falhas no atendimento previdenciário
Transplantado, com perda auditiva em um dos ouvidos e diagnosticado com câncer de pele em estágio avançado, o motoboy Eduardo da Costa, de 53 anos, solicitou um benefício por incapacidade ao INSS no dia 25 de dezembro de 2025. Mesmo impossibilitado de trabalhar, ele teve a perícia médica agendada apenas para março, ficando meses sem qualquer renda previdenciária.
Sem conseguir atendimento presencial nas agências do instituto, Eduardo afirma depender quase exclusivamente dos canais digitais do INSS para tentar acelerar o processo. Segundo ele, o aplicativo e os sistemas online apresentam falhas constantes, o que dificulta a obtenção de informações e a resolução do pedido.
O caso de Eduardo ilustra a realidade enfrentada por milhares de segurados que integram a fila nacional de análise de benefícios, criada pelo INSS em meados de janeiro. Com a mudança, os requerimentos deixaram de ser organizados apenas por região, permitindo que servidores de locais com menor demanda passem a analisar pedidos de áreas mais sobrecarregadas.
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Apesar da reformulação, a nova fila já opera sob forte pressão. Segurados em condições graves seguem aguardando perícia médica sem acesso ao benefício, mesmo em situações que envolvem incapacidade evidente para o trabalho.
FALTA DE CRITÉRIO POR GRAVIDADE
Especialistas apontam que um dos principais entraves do sistema é a ausência de classificação por urgência clínica. Isso ocorre porque a fila do INSS é composta, em sua maioria, por segurados que já possuem prioridade legal, como idosos, pessoas com deficiência ou portadores de doenças incapacitantes.
Na prática, essa configuração faz com que casos de gravidade muito distinta sejam tratados de forma semelhante no momento do agendamento da perícia, já que não existe determinação para que o sistema avalie a urgência médica antes da análise presencial.
Em nota, o Ministério da Previdência Social (MPS) informou que a fila de perícias é única e organizada exclusivamente pela data de entrada do requerimento. Segundo a pasta, não há possibilidade de diferenciar graus de gravidade, pois a condição de saúde do segurado só é oficialmente identificada durante a perícia médica.
O advogado previdenciário e colunista da Folha, Rômulo Saraiva, afirma que a falta de priorização clara é um dos maiores problemas do modelo atual. De acordo com ele, embora existam leis que garantem atendimento preferencial em outras áreas do serviço público, o fluxo de agendamento de perícias do INSS não prevê distinção entre casos mais ou menos graves.
RECORDE DE PEDIDOS E ATRASOS
O tamanho da fila também agrava o cenário. Dados do Boletim Estatístico da Previdência Social de dezembro de 2025 apontam que o INSS acumula mais de 3 milhões de requerimentos de benefícios em análise ou aguardando perícia inicial o maior número já registrado.
Do total, cerca de 982,2 mil pedidos ainda estão dentro do prazo legal de até 45 dias, enquanto quase 1,7 milhão já ultrapassou esse limite. Outros 357 mil processos seguem parados por pendências documentais atribuídas aos próprios segurados. A região Nordeste concentra o maior volume de atrasos, com mais de 1,08 milhão de requerimentos pendentes.
O número contrasta com a promessa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de zerar a fila do INSS durante o mandato.
CONSEQUÊNCIAS PARA OS SEGURADOS
Segundo Saraiva, há situações em que o tempo de espera é tão longo que o segurado acaba se recuperando antes da perícia ou retornando ao trabalho por necessidade financeira. Nesses casos, o benefício pode ser negado ou concedido sem pagamento retroativo, mesmo após meses de afastamento.
É o que teme a funcionária de logística Arianne Liz, de 34 anos. Afastada desde o fim de outubro após romper o ligamento do joelho e lesionar o menisco, ela passou por cirurgia, apresentou laudos médicos que indicam necessidade de afastamento prolongado e tenta, desde novembro, realizar a perícia médica para ter acesso ao benefício.
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Enquanto aguardam atendimento, segurados relatam insegurança financeira, dificuldade de acesso aos canais oficiais e incerteza sobre quando — ou se terão o direito reconhecido.