André Lima e André Aquino, do MMA, articulam como políticas públicas de integração e manejo do fogo associadas a mecanismos de financiamento podem favorecer atores locais em prol da conservação
O ano de 2024 deixou profundas cicatrizes de fogo nos biomas brasileiros. O país registrou 30,8 milhões de hectares queimados entre janeiro e dezembro, com um aumento de 79% em relação a 2023, de acordo com dados do do MapBiomas. O aumento é atribuído principalmente aos efeitos acumulados de um longo período de seca, intensificado pelo fenômeno El Niño, que deixou a vegetação extremamente suscetível.
Porém, assim como são muitas as camadas de vegetação afetadas pelas chamas, evitar a destruição de ecossistemas equilibra desafios que vão da integração de técnicas agrícolas ancestrais que utilizam o fogo como elemento ao investimento na adaptação das comunidades afetadas diante de uma realidade marcada por temperaturas cada vez mais altas e secas extremas cada vez mais frequentes.
“Cada localidade tem as suas necessidades e, em alguns casos, coisas muito simples podem fazer muita diferença. Já aconteceu de estar atuando como brigadista voluntário em uma região de agropecuária e não conseguir encontrar em nenhuma loja um simples abafador.
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Por isso a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo [PNMIF] contempla tantas complexidades: ela precisa mobilizar os territórios para ter alguma efetividade” explicou André Lima, Secretário Extraordinário de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), na última quarta-feira (20) no Aterra. O evento, em celebração aos 30 anos do Instituto Imaflora, foi realizado ao longo de dois dias no Sesc Santo Amaro, em São Paulo, e reuniu especialistas e lideranças referenciais para o debate socioambiental brasileiro.

“A única coisa que é capaz de conter grandes incêndios de cima para baixo é a chuva”, sintetizou Lima. O Secretário lembrou que o salto das queimadas do ano passado se deu em cenários hídricos que transformaram até biomas marcados por grande umidade, como o Pantanal, em altamente propícios à propagação destruidora do fogo.
No entanto, o aprofundamento e possível recorrência desses novos contextos demonstra que é necessário pensar para além das grandes estruturas. “É necessário investir nas especificidades territoriais em solo, enxergando esse processo dentro do paradigma da adaptação climática, tantas vezes associada ao contexto urbano”, explicou André Lima ao ((o))eco. Nos contextos rurais e nas comunidades tradicionais, seguiu o Secretário, criar mecanismos de sobrevivência diante de novos contextos marcados por extremos climáticos tem por efeito claro proteger populações na mesma medida em que seus territórios, ao se tornarem mais resilientes, favorecem as trocas ecossistêmicas que favorecem o equilíbrio climático.

Fotos: Reprodução
“Precisamos investir na formação de comunidades resilientes ao fogo. Isso não significa gastar menos em profissionais, equipamentos ou tecnologia. Mas reconhecer que já existe no país um enorme corpo de brigadistas voluntários, pessoas com conhecimentos mapeados sobre onde se dão as principais incidências. Envolver esses e outros atores locais é o que permite a criação de estratégias que envolvam instâncias que também são importantes, como a Justiça por exemplo”, indicou André Lima.
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O Secretário salientou que a existência de uma política de manejo não significa que exista alguma forma de incêndio prescrita. E lembrou que existem ecossistemas que literalmente se beneficiam com a presença e o manejo do fogo. Questionado sobre o que seria impeditivo para o avanço de uma política tão ampla, citou uma palavra bastante recorrente: o financiamento.
Fonte: O Eco