O tráfico de animais silvestres ganha nova força no ambiente digital, impulsionado por jovens que tratam a ilegalidade como hobby e subestimam seus impactos ambientais
Cada vez mais jovens, inclusive adolescentes, têm abastecido o mercado online ilegal de animais silvestres no Brasil. A prática, impulsionada por redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas digitais, foi detalhada em um estudo recente da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), obtido pela BBC News Brasil.
O levantamento analisou cerca de 3 mil mensagens trocadas em grupos clandestinos no WhatsApp e revelou a participação expressiva de pessoas com até 30 anos muitas delas ainda menores de idade na venda e troca de animais como répteis, aves e mamíferos. Para muitos, o tráfico é visto como um “hobby”, e não como crime ambiental.
Um dos entrevistados, um estudante de medicina veterinária de 24 anos, que prefere não se identificar, afirma que começou ainda na adolescência, inspirado por vídeos no YouTube que mostram a criação de animais exóticos. Ele relata que administra diversos grupos de negociação e que o dinheiro obtido com as vendas costuma ser reinvestido na compra de outros animais.
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Segundo a Renctas, o comércio ocorre majoritariamente em ambientes digitais fechados, baseados na confiança entre os participantes. Para driblar a fiscalização, os vendedores utilizam chips internacionais, VPNs, perfis falsos e pseudônimos, além de linguagens cifradas. Em alguns casos, plataformas de e-commerce são usadas de forma indireta: anúncios de produtos comuns servem apenas como meio para efetuar pagamentos de animais ilegais.
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ntrabandista usa Mercado Livre como plataforma de
pagamento para negociar animais silvestres
(Foto: Renctas)
A pesquisa aponta que a familiaridade dos jovens com tecnologias digitais facilita esse tipo de operação. A faixa etária mais presente nos anúncios analisados foi a de 21 a 30 anos, seguida por adolescentes entre 11 e 20 anos. Houve, inclusive, registros de crianças envolvidas em páginas que anunciavam a compra e venda de répteis.
Especialistas alertam que muitos desses jovens não têm plena consciência da gravidade ambiental e jurídica do tráfico. Para o coordenador da Renctas, Dener Giovanini, existe uma falsa percepção de que criar animais silvestres em casa seria uma forma de proteção da fauna. “Eles se colocam como salvadores da natureza, quando, na realidade, alimentam uma cadeia criminosa”, afirma.
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Vendedores oferecem item falso no Mercado Livre
para facilitar pagamento por animais silvestres
(Foto: Renctas)
O Ibama confirma que o envolvimento de jovens é recorrente em apreensões e operações. De acordo com agentes ambientais, a exposição constante de animais silvestres nas redes sociais contribui para naturalizar a prática, inclusive entre crianças, que passam a enxergar o tráfico como algo comum ou aceitável.
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Apesar de políticas que proíbem a comercialização de animais silvestres, empresas de tecnologia admitem dificuldades em identificar transações ilegais camufladas como operações legítimas. Autoridades defendem maior cooperação entre plataformas digitais, fiscalização e ações educativas para frear o avanço desse mercado clandestino.