16 de Abril de 2024 - Ano 10
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02/03/2024

Lebrão invade o Brasil no rastro do desmatamento

Foto: Reprodução

Relatório inédito aponta prejuízos nacionais de até R$ 15 bilhões anuais com espécies exóticas vindas do mundo todo

Muito ágil e de hábitos noturnos, o animal já prejudica a agricultura nas regiões Sul, Sudeste, Centro-oeste e Nordeste. Seus impactos econômicos e ambientais precisam ser estudados a fundo. A espécie europeia avança no Brasil e outros países vizinhos desde o Uruguai, onde chegou há 140 anos.

 

O fim do dia se tornou um momento de tensão para produtores brasileiros, pois à noite o lebrão se torna mais ativo e devora lavouras comerciais e caseiras. No sul de Santa Catarina, fruticultores de municípios como Meleiro, Sombrio e Santa Rosa do Sul perderam safras inteiras este ano. Com um hectare produzindo maracujás vendidos para São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, Marlon Schuvartz viu 800 de 2,4 mil pés da fruta serem destruídos pelo animal. “Esse ano foi fora do comum. Praticamente todos os produtores de maracujá, feijão e milho foram afetados”, conta.

 

Ao contrário de outros agricultores, Schuvartz conseguiu investir R$ 4 mil num cercado para conter os ataques da voraz espécie. “Desistir não adianta, se não plantar não colhe”, diz. Novas mudas foram cultivadas em seguida. “Mas mudar o período de safra reduz o valor de venda da produção”, relata.

 

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A realidade de pequenos agricultores catarinenses ecoa em toda a Região Sul e nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás e Bahia, relata Clarissa da Rosa, pesquisadora no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) que há mais de uma década acompanha invasões biológicas.

 

Ela conta que até 9 filhotes podem nascer nas duas gestações anuais da espécie. “A espécie se reproduz ‘que nem coelho’”, diz a doutora em Ecologia pela Universidade Federal de Lavras (UFLA). Mas outros fatores facilitam sua dispersão, em cerca de 45 km anuais no país.

 

O nome científico do lebrão, Lepus europaeus, remete sua origem à Europa, onde ocupa campos naturais. Isso explica sua adaptação ao Pampa, bioma onde predominam pastagens nativas. Algo diferente do tapiti (Sylvilagus brasiliensis), coelho nativo que prefere florestas, do Brasil ao México.

 

 

“A lebre-europeia vem subindo pelo Brasil acompanhando o desmate da Mata Atlântica e do Cerrado para formar pastagens para gado e lavouras”, revela Clarissa da Rosa, do Inpa. “Esses ambientes favorecem sua dispersão. Ela se dá bem inclusive em lavouras de soja”, reforça a pesquisadora.Na Região Sul o lebrão se dispersou há décadas e já é capturado por animais selvagens como onça-parda e gato-do-mato. “Mas essas capturas eventuais não dão conta de controlar as populações crescentes da espécie exótica”, detalha Clarissa da Rosa.

 

Com pernas longas, capazes de longos saltos e chegando a 60 km/h, lebres adultas dão um sufoco na grande maioria dos carnívoros brasileiros. Na Europa, a espécie é predada por animais como lobo-cinzento (Canis lupus) e lince (Lynx lynx), cujas números encolhem pela caça.Mesmo pipocando no país, os prejuízos da lebre-europeia ainda não receberam a devida atenção. “Sem investir em pesquisa é mais difícil controlar sua dispersão”, ressalta Clarissa da Rosa. “A lebre pode inclusive espalhar doenças para animais nativos”, lembra a pesquisadora.

 

Fotos: Reprodução

 

Enquanto isso, produtores tentam de tudo para reduzir os danos gerados pelo lebrão. No sul de Santa Catarina, todavia, cercas elétricas, arapucas com itens como batata-doce e cenoura, luzes automáticas, criolina, ciprestes e naftalina – que exalam forte cheiro – não deram conta do recado.

 

“Em poucos dias chovia [lavando os químicos] ou o lebrão se adaptava e voltava às lavouras”, conta o agricultor Marlon Schuvartz, em Meleiro (SC). “Isso é uma grande preocupação para quem trabalha na roça, além do clima que vem mudando e afetando a produção”, destaca.

 

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Vice-presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Santa Catarina (FETAESC), Luiz Sartor avalia que as medidas usadas pelos produtores atenuam apenas temporariamente os estragos. “Faltam soluções efetivas para os problemas causados pelo lebrão”, reclama. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) não atendeu aos nossos pedidos de entrevista até o fechamento da reportagem. 

 

Fonte: O Eco

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