Experiências simples na infância fortalecem conexões cerebrais ligadas à atenção, memória, linguagem, raciocínio e capacidade de resolver problemas
O cérebro das crianças está em constante transformação durante os primeiros anos de vida. Por meio da neuroplasticidade, capacidade que permite ao sistema nervoso modificar suas estruturas e conexões a partir das experiências, atividades aparentemente simples, como ouvir uma história, reconhecer uma sequência de números ou separar objetos por tamanho, podem contribuir para o desenvolvimento de habilidades cognitivas importantes.
Pesquisas na área da neurociência cognitiva mostram que esses estímulos não precisam ocorrer por meio de treinamentos intensivos ou atividades complexas. Interações significativas e frequentes no cotidiano já são capazes de mobilizar diferentes regiões do cérebro e fortalecer circuitos relacionados à linguagem, memória, concentração, raciocínio e planejamento.
No caso da leitura, os benefícios vão muito além do reconhecimento de letras e palavras. Quando uma criança escuta ou lê uma história, precisa acompanhar a sequência dos acontecimentos, guardar informações na memória e prestar atenção aos detalhes para compreender o que está acontecendo. Esse processo contribui para o desenvolvimento da chamada atenção sustentada, que permite permanecer concentrado em uma determinada atividade por períodos cada vez maiores.
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Segundo a psicopedagoga Virgínia de Castro, especialista em neurociência e educação da Maple Bear Brasília, o contato frequente com histórias ajuda a criança a exercitar justamente essa capacidade de concentração.
“A leitura exige que a criança pare, acompanhe uma história, preste atenção aos detalhes e mantenha as informações na cabeça para entender o que está acontecendo. Com a prática, ela vai exercitando essa capacidade de permanecer concentrada por mais tempo”, explica.
As habilidades matemáticas também começam a ser construídas antes mesmo de a criança aprender formalmente as operações na escola. Atividades do cotidiano, como contar brinquedos, separar objetos, comparar tamanhos, identificar padrões e dividir alimentos, ajudam a desenvolver noções relacionadas a quantidade, espaço e sequência.
Brincadeiras com jogos de tabuleiro, quebra-cabeças e desafios que exigem estratégias também podem estimular o planejamento e a capacidade de encontrar soluções para diferentes problemas. Essas experiências fazem com que a criança precise analisar possibilidades, testar caminhos e lidar com erros até chegar a uma resposta.
A neuropsicopedagoga Elaine Cristina, especialista em neurociência cognitiva do Colégio Sigma, destaca, porém, que brincadeiras e ensino tradicional não devem ser colocados como concorrentes. Segundo ela, cada tipo de experiência mobiliza o cérebro de uma maneira e pode contribuir para o aprendizado.
“Essa comparação seria simplista. Experiências diferentes mobilizam redes cerebrais de maneiras diferentes e podem ser complementares. O jogo oferece exploração, desafio e aplicação. O ensino sistemático organiza conhecimentos, apresenta conceitos e cria uma progressão que dificilmente ocorreria apenas pela descoberta espontânea”, afirma.
A falta de estímulos durante a infância pode influenciar o repertório com que a criança chega à escola, mas dificuldades de aprendizagem não podem ser atribuídas a um único fator. Questões genéticas, qualidade do sono, estado emocional, ambiente familiar e qualidade do ensino também podem interferir no desenvolvimento.
Por isso, especialistas defendem que o estímulo deve acontecer de maneira natural, sem transformar a rotina da criança em uma sequência de cobranças e exercícios. Cozinhar com os pais, por exemplo, pode se transformar em uma atividade de matemática ao medir ingredientes. Organizar brinquedos pode trabalhar classificação e comparação, enquanto contar objetos ajuda na construção das primeiras noções numéricas.
O papel dos adultos também é importante para estimular o raciocínio. Em vez de simplesmente apresentar a resposta quando a criança encontra uma dificuldade, pais e educadores podem fazer perguntas que a levem a explicar como chegou a determinada conclusão.
Esse tipo de interação contribui para o desenvolvimento da metacognição, capacidade de refletir sobre o próprio processo de pensamento. Perguntas como “como você descobriu?”, “existe outro jeito de fazer?” ou “o que aconteceria se mudássemos isso?” incentivam a criança a formular hipóteses, testar possibilidades e desenvolver maior autonomia.
“Quando perguntamos ‘como você descobriu?’, ‘será que existe outro jeito?’ ou ‘o que aconteceria se fizéssemos diferente?’, convidamos a criança a explicar o próprio raciocínio, testar hipóteses e desenvolver autonomia para pensar”, ressalta Elaine.
Outro ponto de atenção está no uso das telas. O problema, segundo as especialistas, não está apenas na presença de dispositivos digitais na rotina infantil, mas no tempo em que o consumo passivo de conteúdos substitui atividades que envolvem movimento, conversa, brincadeiras e exploração do ambiente.
Para Virgínia, quando grande parte do tempo da criança é ocupada apenas pelo consumo passivo de vídeos e outros conteúdos, diminuem as oportunidades de exercitar habilidades cognitivas por meio de experiências concretas.
“Se grande parte do tempo é ocupada por um consumo passivo de conteúdo, ela acaba tendo menos oportunidades de exercitar essas habilidades. Não é simplesmente uma questão de proibir a tela, mas de garantir equilíbrio e variedade nas experiências”, observa.
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A combinação entre leitura, brincadeiras, desafios matemáticos, conversas e atividades práticas cria, portanto, um ambiente rico para o desenvolvimento infantil. A neuroplasticidade mostra que o cérebro se modifica de acordo com aquilo que é praticado repetidamente, fazendo das experiências cotidianas importantes ferramentas para fortalecer habilidades que serão utilizadas ao longo da vida.