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Manaus, a capital das palafitas gourmet
Foto: Reprodução / PORTAL DO ZACARIAS

Por Diágoras Spinoza - Nesta minha crônica de estreia no Portal do Zacarias, destaco a minha querida Manaus, que vive um momento mais do que histórico, ou mais do que hilário. Finalmente entramos para o Guinness Book da precariedade urbana: somos a capital brasileira onde as favelas mais cresceram nos últimos 40 anos. Crescemos 2,6 vezes. É quase um PIB — só que PIB de barraco.

 

Segundo estudo do MapBiomas, enquanto as cidades brasileiras cresceram 2,5 vezes, nossas favelas resolveram se destacar. Aqui não fazemos nada pela média. Somos protagonistas até na desigualdade. Se houvesse Olimpíada de expansão desordenada, já estaríamos treinando retumbantemente para Los Angeles.

 

Mas calma, gente amiga: o presidente Lula vem aí. Ele chegará no próximo dia 24, para entregar 576 casas do Minha Casa Minha Vida. Casas mobiliadas, com geladeira, fogão, cama, colchão, ventilador e televisão. Televisão é fundamental. O cidadão pode não ter saneamento, mas terá onde assistir ao prefeito inaugurando o próprio feito.

 

O prefeito David Almeida, nosso gestor multimídia, anunciou a chegada presidencial como quem anuncia um festival de likes. A entrega das chaves será o evento da temporada. É a política da selfie habitacional: sorri, segura a chave e corta para o story. Um show de arrepiar.

 

Nada contra as 576 famílias que receberão moradia digna. Ao contrário: que recebam 5.760. O problema é que, enquanto se monta o palco da solenidade, os números continuam morando em palafitas. Vejam bem: entre 1985 e 2024, a área de favelas em Manaus saltou de 53,7 mil hectares para 146 mil. É quase um programa de expansão territorial paralelo, sem fita inaugural.

 

Mas, no ringue principal, o “prefeitão influencer” troca jabs verbais com o senador Omar Aziz (PSD), pré-candidato ao governo, dono de musculatura partidária e fundos robustos. É o UFC amazônico: de um lado, o Executivo municipal armado de filtros e transmissões ao vivo. Do outro, o senador calejado, com base ampla e apetite estadual.

 

A cidade assiste a tudo. De preferência em HD, graças ao kit mobília.

 

O curioso é que ambos discursam sobre futuro, desenvolvimento e grandeza. Manaus será moderna, resiliente, sustentável — palavras que combinam muito bem com coletiva de imprensa. Já a realidade combina mais com a geografia: ocupações avançando sobre áreas frágeis, crescimento urbano pressionando água, infraestrutura correndo atrás do prejuízo com sandálias havaianas.

 

O próprio estudo lembra que 25% das áreas naturais urbanizadas no país estão onde a segurança hídrica é crítica. Isso quer dizer que construímos onde a água pode faltar. É a engenharia do improviso permanente. Na Amazônia, onde sobra rio, pode faltar torneira.

 

Mas não sejamos pessimistas. No dia 24 haverá palanque, discurso, aplauso e chave dourada. A política adora metáforas: entregar chaves simboliza abrir portas. Pena que os dados insistam em arrombar a narrativa. Putzgrila!

 

David quer o governo. Omar também. Ambos falam em transformação. Manaus, por enquanto, transforma barranco em bairro com eficiência estatística.

 

Saibam que eu, Diágoras Spinoza, observo com ternura sarcástica, pois esta é a única capital do planeta onde a expansão das favelas é mais consistente que qualquer plano diretor. Crescemos onde não devíamos, celebramos o que é insuficiente e brigamos pelo comando da máquina que promete consertar o que nunca foi enfrentado de verdade.

 

No dia da cerimônia, haverá fogos — metafóricos, espera-se. Depois, as 576 famílias dormirão sob teto novo. E as outras dezenas de milhares continuarão esperando que o próximo evento venha com algo além de fotografia oficial.

 

Manaus é barroca até na contradição: floresta infinita, miséria expansiva e políticos em campanha permanente.

 

Se a cidade fosse um slogan, seria este:

“Aqui, até o problema cresce acima da média”. Eu, Diágoras, agradeço, ajeito minha roupa amarrotada e já vou me preparando para outro round contra quem não gostar desta crônica. Porque nesta metrópole onde o improviso vira política pública e a estatística vira cenário de inauguração, indignação é artigo descartável e memória urbana tem prazo de validade.

 

Manaus produz sandices em escala industrial. E, pelo ritmo do crescimento, em breve talvez até exporte.

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