NOTÍCIAS
Cultura e Eventos
Manaus: da Belle Époque à deslumbrante currutela
Foto:

Por Diágoras Spinoza

 

Um internauta escreveu ao empresário Antônio Zacarias pedindo que sugerisse a este escriba uma crônica com o seguinte título: “Manaus: da Belle Époque à deslumbrante currutela”.

 

Zacarias levou o pedido a sério. Passou quatro dias me enchendo o saco que nem cobrador de banco. Exigiu que a crônica fosse parida até esta quinta-feira.

 

Passei dois dias bebendo vinho tinto do Alentejo e suplicando inspiração a Baco. O resultado está aqui: uma crônica com um pouco de história, um bocado de veneno e uma pitada de deboche bem calibrado. Manaus, convenhamos, é um laboratório perfeito para ironias históricas — começa com barões de fraque indo à ópera no Teatro Amazonas e termina com o cidadão desviando de crateras lunares nas avenidas da cidade, tudo sob 35 graus e 90% de umidade. É praticamente um maldito realismo mágico urbano.

 

Manaus nasceu em 1669, com um forte militar plantado no meio da floresta para lembrar aos estrangeiros que aquilo aqui tinha dono. O forte virou povoado, o povoado virou vila, a vila virou cidade e a cidade virou uma curiosa experiência sociológica permanente: como transformar um sonho europeu no meio da Amazônia em uma currutela tropical sofisticadamente desorganizada, bagunçada mesmo.

 

Mas justiça seja feita: já fomos chiques. Muito chiques. No final do século XIX, durante o ciclo da borracha, Manaus entrou em um surto de riqueza tão repentino que os barões da seringueira passaram a acreditar que viviam em Paris — ou pelo menos em um algo parecido com um distrito francês, com calor de 38 graus e mosquito do tamanho de helicóptero.

 

A cidade ganhou bondes elétricos, água encanada, iluminação pública e avenidas elegantes numa época em que boa parte do Brasil ainda iluminava as ruas com lamparina. Era a chamada Belle Époque amazônica.

 

Enquanto seringueiros morriam de malária no interior, a elite manauara importava lustres da França, mármore da Itália e champagne da mesma procedência — porque ninguém é de ferro. Construíram o glorioso Teatro Amazonas, inaugurado em 1896, para que os barões da borracha pudessem assistir ópera italiana no meio da selva com o mesmo ar blasé de quem toma chá em Londres.

 

 

“PARIS DOS TRÓPICOS”

Manaus virou a famosa “Paris dos Trópicos”. Sim, Paris. No meio da floresta. Só esqueceram de combinar isso com a realidade. A riqueza da borracha era tão sólida quanto casa construída sobre o Igarapé do 40. Bastou os ingleses levarem sementes da seringueira para a Ásia que o império amazônico desmoronou como castelo de cartas em dia de vento. E lá se foi Paris. O que ficou foi o calor. E a conta.

 

Durante décadas, Manaus viveu uma espécie de ressaca histórica. Os palacetes ficaram, os bondes desapareceram, a riqueza evaporou e a cidade voltou à sua vocação original: porto de madeira, peixe e improviso urbano.

 

Foi aí que nasceu o apelido mais sincero da história da capital: Porto de Lenha. O jornalista e poeta Aldísio Filgueiras eternizou a ironia na música que virou quase um hino informal da resignação manauara: “Porto de Lenha, tu nunca serás Liverpool”. Uma constatação cruel, mas honesta. Liverpool tem Beatles. Manaus tem buracos.

 

E assim fomos levando a vida até que, nos anos 1960, Brasília resolveu nos salvar outra vez com uma ideia chamada Zona Franca de Manaus. A lógica era essa: já que não temos estrada para lugar nenhum, vamos trazer as fábricas para cá e torcer para dar certo. E olhem que deu. Mais ou menos.

 

 

MILAGRE CHAMADO ZFM

Hoje temos televisores fabricados no meio da floresta, motocicletas alemãs montadas sob calor equatorial e celulares que atravessam oceanos antes de chegar ao consumidor brasileiro. A Zona Franca virou um milagre econômico tropical que sustenta centenas de milhares de empregos e impede que metade da cidade viva de pescaria e fé em São José.

 

Mas também produziu um fenômeno urbano curioso: uma metrópole que cresce como mato em igarapé. Manaus já passou dos dois milhões de habitantes, dizem que tem trânsito de metrópole asiática, bairros que surgem de madrugada e avenidas que começam modernas e terminam em crateras geológicas.

 

E o planejamento urbano? Alguns malucos afirmam que existe. Provavelmente arquivado em alguma gaveta oficial. A cidade que um dia teve boulevards elegantes e bondes elétricos agora disputa medalha olímpica em congestionamento, improviso e obras que fazem rir.

 

Estamos em 2026, entre o esplendor de um teatro italiano no meio da selva e o charme de um buraco de seis metros na avenida principal. Manaus é uma cidade paradoxal. Metade Belle Époque. Metade currutela.

 

Manaus é uma Paris tropical que acordou um dia vestida de Liverpool e descobriu, com certa melancolia, que continuava sendo Porto de Lenha.

 

Mas confesso uma coisa, minha gente. Apesar do calor, do trânsito, dos prefeitos delirantes e das obras que nunca terminam, Manaus continua sendo irresistível. Porque poucas cidades do mundo conseguem ser, ao mesmo tempo ópera italiana, porto de madeira, zona industrial, currutela amazônica e capital da maior floresta do planeta. Tudo no mesmo e ridículo CEP. E isso Liverpool não tem.

LEIA MAIS
DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Mensagem:

Copyright © 2013 - 2026. Portal do Zacarias - Todos os direitos reservados.