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Por Diágoras Spinoza - Confesso, minha gente, que tenho o hábito infeliz de abrir o Instagram antes de tomar café. É uma forma de tortura matinal que cultivo com carinho desde que a política amazonense descobriu o recurso dos reels. Bem entendido, reels são vídeos com conteúdos, idiotas ou não, sobre várias coisas. O resultado é que começo todo dia com a pressão nas alturas e uma vontade irresistível de me mudar para Pasárgada. E haja Losartana de 50mg, que eu compro todo mês da drogaria da Dona Leilinha.
Nesta semana, que está findando, fui presenteado com conteúdos hilariantes, pré-candidatos ao Governo do Amazonas, e outros pretendentes a cadeiras na Assembleia Legislativa do Estado, falando sobre Manaus como se, num passe de mágica, ela pudesse se transformar numa "Suíça Equatorial", pré-candidatos com aquela desenvoltura de quem nunca pisou em igarapé com sandália de couro. Eram vídeos que tinham até trilha sonora de filme de guerra americana, e o sorriso ensaiado de quem passou a tarde inteira na frente do espelho treinando o "olhar de liderança". Os vídeos eram emocionantes. Quase chorei... de raiva.
Aí larguei o celular. Olhei pela janela e vi o esgoto. Ah, Manaus. Minha querida, minha esculhambada, minha trágica e adorada Manaus.
Para quem não conhece nossa metrópole amazônica e se informa apenas pelos posts dos exóticos pré- candidatos, deixe eu pintar um quadro mais fiel: somos, orgulhosamente, a cidade com o maior número de áreas de risco do Brasil em 2026. São 380 pontos onde o barranco aguarda a próxima chuva como quem espera um ônibus atrasado — com paciência, com certeza e sem nenhuma surpresa.
SORRISO DE PAPAI NOEL
Claro que "contenção de encostas" não rende curtidas como uma foto distribuindo cesta básica com sorriso de Papai Noel. Então, o assunto fica discretamente guardado na gaveta até que alguém desapareça sob a lama e o assunto vire algo barulhento nas redes sociais.
Os igarapés, que deveriam ser a alma líquida desta cidade, viraram algo que eu descreveria como "uma exposição de arte contemporânea sobre o fracasso civilizatório". O Igarapé de São Raimundo e o do Educandos são monumentos vivos — e fedorentos — à nossa competência coletiva em transformar beleza em esgoto a céu aberto. Quem duvidar, navegue por eles e encontrará de tudo: plástico de marca, eletrodoméstico aposentado, e a versão física de cada promessa de campanha das últimas três décadas.
Em 2026, batemos palmas porque chegamos a 40% de cobertura de esgoto. Quarenta por cento! Os outros sessenta por cento vão direto pro Rio Negro, in natura, sem escala, sem cerimônia, sem o menor constrangimento. É o nosso presente para uma das maiores reservas de água doce do planeta. Somos assim, generosos.
Mas voltemos ao Instagram, que é onde a vida realmente acontece segundo nossos ilustríssimos pré-candidatos.
De um lado, temos o Discurso da Continuidade, que explica com a maior naturalidade do mundo por que os ônibus continuam sendo experiências de terror psicológico e por que a mobilidade urbana de Manaus seria considerada um crime contra a humanidade em qualquer cidade com mais de dois semáforos funcionando. Do outro, a Oposição Redentora, que promete a revolução mas, quando esteve no poder, descobriu que asfalto eleitoral de dois centímetros é muito mais fotogênico que obra de verdade.
Os marqueteiros trabalham noite e dia para humanizar figuras com o carisma natural de uma planilha de Excel. Gastam fortunas, inventam histórias de vida comoventes, encomendam vídeos que fariam Glauber Rocha chorar — de vergonha ou de inveja, não sei. Enquanto isso, a Manaus real faz vaquinha nas redes para comprar aterro e tentar segurar literalmente o barranco. O orçamento da Defesa Civil continua sendo uma piada de mau gosto, mas o dinheiro para festas e eventos de "visibilidade" nunca falta. Prioridades, né, gente amada.
112 MIL NA LAMA
São 112 mil manauaras que dormem todo dia com o medo gentil da lama que pode descer a qualquer momento. Cento e doze mil. Mas é muito mais "sustentável" falar de crédito de carbono em conferências no exterior do que explicar por que a Defesa Civil da capital amazônica opera no modo artesanal, ora bolas.
O eleitor de Manaus, em 2026, está sendo convidado para uma festa de gala num prédio que está desabando. O buffet é de encher o olho, a decoração está impecável, a banda toca maravilhosamente. Só que a cada meia hora um pedaço do teto cai, alguém escorrega num poço de esgoto, e o anfitrião sorri e diz: "Olha, isso faz parte do charme local, é a nossa identidade cultural".
A tragédia de Manaus não é só geológica. Não é só sanitária. É, fundamentalmente, ética. É a tragédia de uma classe política que olha para o mapa da cidade e só enxerga zonas eleitorais. É a tragédia de um povo que respira o odor do descaso e ainda assim vai às urnas esperançoso, eleição após eleição, como quem joga na Mega-Sena sabendo que as chances são mínimas mas que alguém, algum dia, tem que ganhar.
NO CALCANHAR DA HIPOCRISIA
Eu, Diágoras Spinoza, que adoro um jornalismo que morde o calcanhar da hipocrisia, encerro esta crônica com um recado carinhoso aos nossos pré-candidatos: filtro de beleza não segura encosta. Dancinha no TikTok não drena igarapé. Vídeo em 4K não paga o trauma de quem perdeu a casa na chuva.
A realidade de Manaus é teimosa e mal-educada. Mais cedo ou mais tarde — geralmente na próxima chuva — ela aparece, fedorenta e insistente, exigindo que alguém finalmente olhe para ela de verdade.
Até breve, meus caros amigos, sigamos acompanhando os Stories. A pochete digital continua cheia. Os igarapés, também, cheios de lixo, de merda, de tudo.