Busca por atendimento antes do surgimento de sintomas graves cresce e reforça a importância de hábitos saudáveis, acompanhamento médico regular e identificação precoce de doenças.
A preocupação com a saúde tem levado pacientes a procurar atendimento médico antes mesmo do aparecimento de dores intensas ou de sintomas mais graves. A mudança de comportamento tem sido percebida por profissionais de diferentes especialidades e reflete uma transformação na medicina, que passa a valorizar cada vez mais a prevenção, a qualidade de vida e o bem-estar físico e emocional.
O ortopedista Guilherme Porceban, especialista em cirurgia da coluna vertebral, em São Paulo, observa que pacientes têm chegado mais cedo ao consultório. Segundo ele, enquanto antes muitas pessoas esperavam o agravamento das dores para buscar ajuda, atualmente há maior interesse em investigar sinais iniciais e evitar complicações.
“Vejo que agora acontece a procura de atendimento mais cedo. Justamente para evitar que chegue a um caso difícil de tratar, os casos aparecem mais iniciais, com mais chance de resolução, chegando aos 90%”, afirma.
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O médico destaca ainda que a avaliação não se limita mais à dor ou ao problema físico apresentado pelo paciente. A rotina, os hábitos e outros fatores que interferem na saúde também passaram a fazer parte das conversas durante as consultas.
“Hoje médicos e pacientes sabem que é importante observar os sinais que vão além da dor. Cresceu o interesse de falar sobre a rotina do paciente, todos os fatores que podem impactar seu bem-estar”, acrescenta.
A mudança acompanha uma transformação mais ampla na prática médica. Em vez de concentrar os esforços apenas no tratamento de doenças já instaladas, profissionais têm buscado identificar riscos antecipadamente, preservar funções do organismo e estimular hábitos que contribuam para uma vida mais saudável.
OMS REFORÇA A IMPORTÂNCIA DA PREVENÇÃO
A preocupação com a prevenção também aparece nas iniciativas internacionais de saúde pública. Uma declaração global da Organização Mundial da Saúde (OMS), apresentada no ano passado sobre o controle de doenças não transmissíveis e a saúde mental, destacou a importância de enfrentar fatores de risco presentes no cotidiano.
Entre os pontos abordados estão a alimentação inadequada, o tabagismo, o consumo nocivo de bebidas alcoólicas e o sedentarismo. O documento também chama a atenção para a necessidade de reduzir períodos prolongados de exposição às redes sociais.
Na ocasião, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, ressaltou que a promoção da saúde precisa ir além dos hospitais e consultórios, alcançando os ambientes em que as pessoas vivem, estudam e trabalham.
“Devemos lembrar que a saúde não começa em clínicas e hospitais. Ela começa nos lares, nas escolas, nas ruas e nos locais de trabalho, na alimentação das pessoas, nos produtos que consomem, na água que bebem, no ar que respiram e nas condições em que vivem e trabalham”, afirmou.
A entidade estima que as doenças não transmissíveis sejam responsáveis por cerca de 43 milhões de mortes por ano em todo o mundo, o que reforça a importância de políticas públicas e mudanças de comportamento voltadas à prevenção.
CONSULTAS MAIS DETALHADAS AJUDAM A IDENTIFICAR RISCOS
Para que o acompanhamento preventivo seja efetivo, os médicos precisam conhecer melhor a realidade de cada paciente. Isso inclui investigar aspectos como alimentação, qualidade do sono, rotina profissional, relações familiares e saúde emocional.
O cirurgião cardiovascular Edmo Atique Gabriel defende consultas mais longas e abrangentes. Em seu consultório, as conversas costumam durar pelo menos meia hora, período que permite compreender diferentes aspectos da vida do paciente e identificar possíveis fatores de risco.
Segundo o especialista, algumas pessoas chegam a estranhar a duração do atendimento. Para estabelecer uma relação de confiança, ele utiliza perguntas amplas, que ajudam a compreender o contexto em que o paciente está inserido.
“A abordagem tem de ser multidisciplinar e multifatorial. Dentro da cardiologia, eu consigo trabalhar a questão do sono, alimentação, trabalho que a pessoa tem, relações familiares e como está o seu estado emocional”, explica.
O médico também recomenda consultas anuais com um cardiologista, mesmo para pessoas que não apresentam sintomas. De acordo com ele, mudanças nos hábitos podem contribuir para reduzir riscos e permitir uma atuação mais preventiva, em vez de concentrar o cuidado apenas na prescrição de medicamentos.
DOENÇAS SILENCIOSAS EXIGEM ATENÇÃO ANTES DOS SINTOMAS
A prevenção é especialmente importante diante de doenças que podem evoluir durante anos sem apresentar sinais evidentes. Em alguns casos, o primeiro sintoma percebido pelo paciente pode surgir quando já ocorreu uma complicação grave, como um acidente vascular cerebral (AVC) ou um infarto.
A neurologista Sheila Martins, fundadora da Rede Brasil AVC e ex-presidente da World Stroke Organization, destaca que o modelo de atendimento precisa priorizar a identificação precoce de pessoas em risco.
“As pessoas podem conviver anos com condições sem apresentar sintomas, até que aconteça um AVC ou um infarto. Por isso, é preciso mudar o modelo de cuidado: em vez de esperar que a doença apareça, devemos identificar precocemente quem está em risco e agir antes”, afirma.
A especialista ressalta o papel da Atenção Primária à Saúde nesse processo. Entre as medidas importantes estão a adoção de hábitos saudáveis e o acompanhamento de fatores como pressão arterial, colesterol, diabetes e fibrilação atrial, uma alteração do ritmo cardíaco associada ao aumento do risco de AVC.
A identificação e o controle dessas condições podem ajudar a reduzir a probabilidade de complicações e melhorar a qualidade de vida ao longo dos anos.
SAÚDE TAMBÉM DEPENDE DAS CONDIÇÕES DE TRABALHO
O ambiente profissional é outro aspecto que precisa integrar a avaliação médica. Jornadas excessivas, sobrecarga e exposição a agentes nocivos podem afetar a saúde física e mental, tornando importante investigar as condições de trabalho durante as consultas.
O diretor científico da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), Ricardo Turenko, defende que o cuidado médico esteja presente na rotina das pessoas, e não apenas nos momentos em que uma doença aparece.
“A medicina tem que estar presente na vida da pessoa além do momento em que surge uma doença. É uma ferramenta para viver mais e melhor”, afirma.
A tendência de ampliar o olhar sobre a saúde reforça que a prevenção depende de uma combinação de fatores: acompanhamento médico regular, identificação precoce de riscos, mudanças de hábitos e atenção às condições sociais, emocionais e profissionais.
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Mais do que tratar enfermidades, a proposta é ajudar as pessoas a preservar a saúde e a qualidade de vida antes que os problemas se agravem.