Apesar de ampliar o acesso à informação e ajudar em diagnósticos, modelos de linguagem ligam alerta sobre a qualidade das decisões em saúde
O Conselho Federal de Medicina publicou no dia 27 de fevereiro uma resolução que regulamenta o uso da inteligência artificial na prática médica no Brasil e deixou claro que decisões sobre diagnóstico, tratamento e prognóstico continuam sendo responsabilidade exclusiva dos médicos.
A norma surge em meio ao crescimento acelerado do uso de ferramentas de inteligência artificial por pacientes em busca de informações sobre saúde. Em janeiro, o sistema de IA da empresa OpenAI, o ChatGPT, passou a oferecer uma função voltada para saúde chamada GPT Health, criada para ajudar usuários a entender exames, se preparar para consultas e acompanhar cuidados médicos.
Segundo a empresa, a ferramenta tem caráter apenas informativo e conta com mecanismos de privacidade, sem utilizar dados dos usuários para treinar novos modelos. Mesmo assim, especialistas reforçam que a tecnologia não substitui a avaliação profissional.
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De acordo com a própria OpenAI, mais de 230 milhões de pessoas fazem perguntas relacionadas a saúde e bem-estar no ChatGPT todas as semanas. No Brasil, uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz realizada em 2025 apontou que 85,6% das pessoas já buscaram informações médicas na internet.
Médicos afirmam que a prática tem mudado o comportamento dentro dos consultórios. Muitos pacientes chegam às consultas com hipóteses de diagnóstico baseadas em respostas obtidas na internet ou em sistemas de inteligência artificial.
Segundo especialistas, a tecnologia pode ajudar a explicar termos médicos complexos e facilitar o entendimento de exames e orientações clínicas. Um estudo publicado em 2025 mostrou que versões simplificadas de relatórios hospitalares geradas por modelos de IA aumentaram a compreensão dos pacientes sem comprometer a precisão das informações.
Além disso, pesquisas indicam que profissionais de saúde que utilizam ferramentas de inteligência artificial como apoio conseguem alcançar maior precisão em diagnósticos quando comparados aos que trabalham sem esse tipo de tecnologia.
Apesar dos benefícios, especialistas alertam que sistemas de IA ainda apresentam limitações importantes. Modelos de linguagem são treinados para produzir respostas que façam sentido do ponto de vista da linguagem, mas nem sempre garantem precisão técnica ou científica.
Outro problema apontado em estudos recentes é a tendência desses sistemas de concordar com a premissa apresentada pelo usuário, mesmo quando ela está errada. Esse fenômeno pode reforçar interpretações equivocadas e transformar suspeitas em aparentes “verdades médicas”.
Há também preocupação com vieses presentes nos modelos, que podem influenciar decisões simuladas em saúde com base em fatores como idade, gênero ou raça.
Pesquisas também indicam riscos no campo da saúde mental. Em alguns casos analisados por estudos internacionais, interações prolongadas com chatbots foram associadas ao agravamento de delírios, ansiedade ou outros sintomas psiquiátricos.

A incorporação da IA à saúde esbarra em desafios
que vão além do desempenho técnico
(Foto: Reprodução)
Especialistas ressaltam que a inteligência artificial pode ser uma aliada importante na medicina, principalmente em áreas como radiologia, dermatologia, oftalmologia e patologia, onde algoritmos conseguem identificar padrões em imagens e ajudar na priorização de exames.
Mesmo assim, a recomendação é que essas ferramentas sejam utilizadas apenas como apoio informativo. A avaliação médica continua sendo indispensável para interpretar sintomas, analisar exames no contexto clínico completo e definir o tratamento adequado.
Enquanto a tecnologia avança rapidamente, especialistas defendem a criação de regras mais amplas para o uso da inteligência artificial fora do ambiente clínico, principalmente em países como o Brasil, onde parte da população pode interpretar essas ferramentas como substitutas da consulta médica.
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Para médicos e pesquisadores, o desafio agora é garantir que a tecnologia seja utilizada de forma responsável, ampliando o acesso à informação sem colocar em risco a segurança dos pacientes.