Documentos, vítimas e ações judiciais revelam como médicos prescrevem, treinam e lucram com implantes hormonais. Atuação explora uma brecha regulatória que é investigada pelo Ministério Público e é alvo de alerta do CFM, mas que ninguém fecha
Mesmo após a proibição do uso de anabolizantes para fins estéticos pela Anvisa, médicos continuam comercializando implantes hormonais no país ao explorar lacunas na regulamentação. A prática, revelada em investigação, mostra um mercado bilionário sustentado por prescrição, cursos de capacitação e venda direta aos pacientes.
Os chamados “pellets” hormonais, pequenos implantes inseridos sob a pele, são adquiridos por médicos por cerca de R$ 200 em farmácias de manipulação e revendidos por valores que podem ultrapassar R$ 10 mil.
Para contornar a proibição, profissionais passaram a indicar os implantes como tratamento para doenças como endometriose, síndrome dos ovários policísticos, lipedema e sintomas da menopausa, apesar da falta de evidências científicas que comprovem eficácia nessas condições.
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A mudança nas regras ocorreu após a Anvisa restringir o uso de hormônios com finalidade estética, mas manter a possibilidade de manipulação para outras indicações terapêuticas. Essa flexibilização abriu espaço para reconfiguração do mercado, que passou a operar dentro de uma zona cinzenta da legislação.
Documentos, processos judiciais e relatos de pacientes indicam ainda que há produção em larga escala desses implantes, o que contraria normas que exigem fabricação individualizada mediante prescrição médica. Há também suspeitas de conflito de interesse envolvendo médicos que prescrevem, vendem e lucram com os produtos ao mesmo tempo.
O Conselho Federal de Medicina aponta possíveis infrações éticas nessas práticas e destaca riscos à saúde dos pacientes, especialmente quando os hormônios são utilizados fora das indicações reconhecidas.
A apuração também mostra que mulheres são o principal alvo desse mercado, frequentemente impactadas por discursos que associam hormônios a melhora estética, desempenho físico e vida sexual. Especialistas alertam que esse tipo de abordagem pode induzir tratamentos sem comprovação científica e reforçar a mercantilização da medicina.
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Casos de complicações graves relacionados ao uso dos implantes já foram registrados, incluindo internações e decisões judiciais que reconheceram a relação entre o procedimento e danos à saúde de pacientes.