Ex-banqueiro acompanhou à distância a preparação de uma refeição com caviar, trufas, wagyu e vinhos de safras antigas para o ministro do STF
Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal revelam detalhes da preparação de um almoço organizado pelo ex-banqueiro para o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em dezembro de 2023, em Campos do Jordão, no interior de São Paulo. O encontro ocorreu no hotel Six Senses Botanique e contou com um menu sofisticado, incluindo caviar, trufas, vieiras, foie gras, wagyu e vinhos de safras antigas.
Vorcaro não participou do almoço, mas acompanhou os preparativos à distância. Em uma conversa com o chef José Maria Meira, responsável pela refeição, o então banqueiro afirmou que precisaria dele para uma “missão” e classificou Moraes como seu “convidado mais importante até hoje”.
O chef sugeriu itens como trufas, caviar, vieiras, foie gras e wagyu para compor o cardápio. Vorcaro também orientou a escolha dos vinhos e pediu inicialmente quatro garrafas de sua adega, aumentando depois a quantidade para cinco. Segundo as mensagens, ele especificou que os rótulos deveriam ser de safras antigas e de boa qualidade.
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No dia do almoço, Meira enviou imagens da mesa preparada para receber Moraes e os demais convidados. Vorcaro, porém, demonstrou preocupação com a apresentação e questionou se as latas de caviar deixadas sobre a mesa não deixariam o ambiente “pomposo” demais.
“Quero almoço espetacular mas sem forçar a barra de aparecer”, escreveu o ex-banqueiro, segundo as mensagens divulgadas.
Vorcaro também pediu ao chef que evitasse mencionar seu nome durante o encontro. A orientação, segundo ele, tinha o objetivo de não constranger o ministro diante dos demais convidados.

Vinhos selecionados por Vorcaro para o almoço de Luxo do Ministro
Alexandre de Moraes em Campos do Jordão |
Foto:Reprodução via O Globo
“Evita falar nome, até o meu, pra não constranger o convidado principal”, afirmou Vorcaro na conversa. Ele acrescentou que o chef poderia falar sobre ele caso Moraes perguntasse diretamente.
Após a refeição, Vorcaro soube que Meira havia tirado fotos ao lado de Moraes e registrado o contato do ministro no celular. O ex-banqueiro demonstrou irritação com o episódio e afirmou que aquilo não deveria ter acontecido. Posteriormente, segundo as mensagens, um funcionário explicou que o próprio ministro havia pedido as fotografias.
Em agosto de 2025, Meira voltou a enviar a Vorcaro as imagens feitas com Moraes. Na mensagem, o chef fez um comentário sobre o ministro e mencionou novamente o caviar servido no encontro.

Mesa pronta pelo Chef José Maria Meira para o
almoço organizado por Vorcaro para Moraes
| Foto: Reprodução via O Globo
As conversas sobre o almoço fazem parte de um conjunto de mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro. O material já havia sido mencionado em relatório elaborado pela corporação sob determinação do ministro André Mendonça, que reuniu outras conversas envolvendo Vorcaro e Moraes. O Supremo avalia as informações e, conforme as reportagens que tiveram acesso ao documento, ainda não havia decisão sobre eventual abertura de investigação específica.
Outras mensagens também registram contatos entre Vorcaro e Moraes em 2025. Dois dias antes de ser preso, em novembro daquele ano, o ex-banqueiro teria perguntado ao ministro se deveria deixar o país e se existiria possibilidade de ser preso na manhã seguinte. O conteúdo das conversas foi incluído no material analisado pela PF.

Moraes e o Chefe de cozinha José Maria Meiraem São José dos Campos
Foto: Reprodução/Redes Sociais
A Polícia Federal também apontou, em outro trecho da investigação, um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Segundo os documentos citados nas reportagens, R$ 80,2 milhões teriam sido pagos em dois anos. A existência do contrato e dos pagamentos, por si só, não estabelece uma conclusão sobre eventual irregularidade.
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As conversas sobre o almoço foram divulgadas inicialmente por O Globo e também obtidas pela Folha de S.Paulo. Procurado por meio de sua assessoria, Alexandre de Moraes não se manifestou. José Maria Meira também foi procurado, mas não apresentou posicionamento sobre o conteúdo das mensagens.