Denúncia foi encaminhada à Polícia Civil, OAB e ao Ministério Público, em dezembro. O caso veio à tona após um investigador ser preso suspeito de estuprar uma detenta na unidade
Mensagens e áudios vazados de um celular funcional da Delegacia da Polícia Civil de Sorriso, no Mato Grosso, revelam comentários graves feitos em um grupo de WhatsApp que sugerem abusos sexuais contra detentas, torturas a investigados e outras práticas ilegais. O material começou a circular em dezembro e provocou grande repercussão.
O g1 teve acesso às conversas extraídas do celular oficial da unidade. As mensagens mostram a existência de um grupo chamado “DHPP/Assuntos Oficiais”, em referência à Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa.
Em um print datado de 6 de novembro, os integrantes do grupo comentam sobre uma detenta. Um dos participantes escreve: “uma escaldada nessa piranha, rapaz, pode comer”, seguido de risadas. Em resposta, uma mulher reage surpresa: “Que isso”.
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Na época do vazamento, o delegado titular da unidade, Bruno França, afirmou à imprensa que os prints teriam sido apagados ou editados com o objetivo de prejudicar o trabalho da Polícia Civil e sugerir condutas ilegais da equipe. No entanto, os prints foram submetidos à análise da ferramenta Foto Forensics, que apontou não haver indícios de adulteração no conteúdo das mensagens.
Ainda no mesmo mês em que as conversas vazaram, uma mulher que estava presa na delegacia relatou ao advogado que teria sido estuprada por um investigador da unidade. O policial foi indiciado por estupro e abuso de autoridade nesta sexta-feira (6).
Um grupo de advogados criminalistas se reuniu para discutir o caso e formalizou denúncia contra a delegacia com base nas mensagens vazadas. A Corregedoria Geral da Polícia Civil informou que recebeu a denúncia nesta quinta-feira (5). Já a OAB-MT e o Tribunal de Defesa das Prerrogativas (TDP) disseram que encaminharam ofício ao corregedor-geral e aguardam providências.
Em nota, a Polícia Civil afirmou que vai apurar a autenticidade dos prints, o contexto das mensagens e eventual desvio de conduta de policiais. A corporação declarou ainda que, caso as mensagens sejam verdadeiras, elas não teriam relação direta com o caso de estupro ocorrido em dezembro de 2025.
Procurado, o Ministério Público informou que não recebeu denúncia formal sobre o caso, apesar de os advogados terem incluído a instituição nos encaminhamentos.
SUSPEITOS DE OUTROS CRIMES
Outras mensagens levantam suspeitas de práticas ilegais dentro da delegacia. Uma fonte ouvida pela reportagem, que pediu anonimato, explicou o significado de expressões usadas nas conversas:
– “Meter flagrantão no pelo”: forjar prisão em flagrante.
– Mensagem orientando que presos só fossem lesionados a partir da segunda quinzena de março, período em que o médico legista, supostamente menos rigoroso, retornaria de férias.
– “O celular dele tá com o B* instalado”: indica que policiais teriam acessado o celular de um investigado e instalado um aplicativo espião para monitoramento ilegal.
– “A gente tá pegando uma arma e rodando ela pelos confrontos”: sugere que a mesma arma estaria sendo usada para ser ‘plantada’ em supostos confrontos policiais, que sempre terminariam com a morte do suspeito.
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Fotos: Reprodução
DENÚNCIAS ANTIGAS CONTRA A MESMA DELEGACIA
Denúncias anteriores envolvendo a mesma equipe da delegacia também apontam possíveis abusos de autoridade. Em janeiro de 2024, uma jovem denunciou ao Ministério Público que foi agredida por policiais na porta de casa e levada para um matagal dentro de uma viatura.
Segundo o relato, durante o trajeto, quatro policiais teriam feito ameaças de abuso sexual. No local, um deles teria usado um pedaço de madeira para agredi-la enquanto outro a segurava, dizendo que ninguém iria socorrê-la. A jovem afirmou que as agressões tinham o objetivo de forçá-la a revelar informações sobre um homicídio ocorrido na cidade.
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Após indicar nomes de possíveis envolvidos, ela foi levada de volta à delegacia, onde familiares a aguardavam. Apesar da gravidade das acusações, a denúncia segue sem avanço nas investigações.