38% das brasileiras, 30% das colombianas e 42% da peruanas relataram violência psicológica de seus companheiros para abandonarem a luta em defesa da floresta e das comunidades envolvidas
Maria Santana Souza - No princípio, era tudo paz. Nas tribos, homens e mulheres cumpriam seu papel social de acordo com a necessidade de sobrevivência do grupo. Não havia opressão da mulher pelo homem. Em alguns grupos, era a mulher a liderança determinada pelos costumes.
Certo dia, naus com homens estranhos chegaram trazendo homens e mulheres escravizados. Agora, o princípio era o verbo oprimir, matar, escravizar, torturar, roubar. E assim a Amazônia foi tomada pelos invasores. Juntos vieram religiosos, com a bíblia numa mão e o chicote na outra. Quem não rezava, a ferro e fogo era subjugado.
Os tempos passaram e a Amazônia continua sendo foco dos horrores da ganância. Hoje, não mais o terror chega com uma cruz e uma espada. Agora, a morte se apresenta como desenvolvimento, progresso e capital.
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Nessa região de muitos povos - ontem bem mais - ainda há resistência, como teve naquelas primeiras empreitadas colonizatórias que aqui chegaram. O sangue continua jorrando de homens e mulheres que não se curvam e não se calam. Destaco aqui muitas mulheres, vítimas da cobiça pela Amazônia, mas que não renunciaram ou recuaram na sua luta em defesa da floresta e de seus povos.

* Irmã Dorothy Stang, assassinada numa emboscada, em 2005, em Anapu-PA.

* Maria do Espírito Santo Silva, morta numa emboscada, juntamente com seu companheiro, José Cláudio Ribeiro, em 2011, na cidade de Nova Ipixuna, no sudoeste do Pará.

* Irmã Adelade Molinari, assassinada em 1985, em Eldorado dos Carajás, no Pará, por sua luta em defesa da terra.

Após 5 meses, corpo de ativista é achado
em lago da usina Jirau
* Nilce de Souza Magalhães, pescadora, denunciava a violação dos direitos humanos pelo consórcio que construia a hidroelétrica de Jirau e os impactos da obra no meio ambiente. Foi assassinada em Rondônia, em 2016.
* Jane Júlia de Oliveira, morta pela polícia militar com mais nove agricultores, na fazenda Santa Lúcia, na cidade de Pau D'Arco, no sudoeste do Pará. Foi a única mulher morta.

* Irmã Cleusa Rody Coelho, morta em Lábrea, no Amazonas, em 1985, nas margens do Rio Paciá, onde trabalhava com os povos indígenas Apurinã.
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Ao dedicar sua vida à luta em defesa da floresta, dos seus povos e do meio ambiente como patrimônio imprescindível para a vida do planeta, as mulheres da Amazônia seguem um percurso de defesa dos seus corpos e do seu território. Não se trata de uma luta isolada ou divorciada de um projeto maior de humanidade. Está implícito nessa resistência o ecofeminismo ou uma forma de se construir mulher plenamente num território rico em cultura e profundamente ameaçado de destruição.

Mas a luta das mulheres da Amazônia, aquelas envolvidas na defesa da floresta e dos corpos-territórios, não enfrentam somente a violência explícita, que assassina, expulsa e destrói. Segundo o estudo "Somos Vitórias-Régias, do Instituto Igarapé, que entrevistou 287 defensoras que vivem na Amazônia brasileira, colombiana e Peruana, muitas dessas mulheres enfrentam um dura luta cotidiana contra a estrutura patriarcal, sofrendo tortura psicológica e física de seus companheiros.

38% das brasileiras, 30% das colombianas e 42% da peruanas relataram violência psicológica de seus companheiros para abandonarem a luta em defesa da floresta e das comunidades envolvidas. A pressão chega ao ponto de terem que escolher entre a vida doméstica ou continuar sua militância. O caso ganha mais gravidade quando o próprio estudo aponta que 67% das mulheres brasileiras que defendem os direitos humanos e o meio ambiente não são remuneradas. Na Colômbia, são 57% e no Peru, 83%.
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Povos da Amazônia e a comunicação: sair de uma contemplação
acomodada, afirma jornalista e professora, Ivânia Vieira
Em artigo publicado, a jornalista e professora da UFAM, Ivânia Vieira, aponta causas estruturantes e estruturadas que também atingem as mulheres defensoras da Amazônia.
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"As lutas das mulheres da floresta pelo direito à vida percorrem, há séculos, os caminhos desse emaranhado de impedimento do qual participam os poderes executivo, legislativo e judiciário, as instituições. Esse conjunto se pronuncia por meio da montagem e operacionalização da estrutura de invisibilização social, e tem por parte da sociedade o referendo na instância da consciência coletiva - o conjunto de crenças e sentimentos comuns a participantes da mesma sociedade determinado como vida própria..."
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Fotos: Reprodução/Google
Como bem posto pela pensadora, às mulheres da Amazônia o desafio da luta emancipatória é mais complexo, diante da sua luta em defesa dos corpos-territórios. Sigamos em frente. Nunca foi fácil. Nossas conquistas sempre foram às custas de sangue e punhos firmes. Assim continuaremos.
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Maria Santana Souza é Jornalista, sob o nº 001487/AM, diretora-presidente do Portal Mulher Amazônica e apresentadora do podcast Ela.