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Meu Jogo: Não me encaixava no padrão e não deixei que me colocassem nele, diz Sissi, ex-camisa 10 da seleção
Foto: Reprodução

Em depoimento ao GLOBO no Dia da Visibilidade Lésbica, ícone do futebol feminino recorda atritos por cabelo raspado e reflete sobre maternidade

Nasci em Esplanada, na Bahia. Não tinha muita perspectiva, mas tinha o sonho de ser jogadora de futebol. Minha mãe falava que eu tinha que ter outra opção, mas eu não queria isso de jeito nenhum. Se tem uma palavra que me define, é persistência. Minha trajetória não foi fácil, mas nunca desisti. E minha geração passou um sufoco danado.

 

Já tinha ouvido falar do Esporte Clube Radar, da primeira seleção brasileira, mas morava no interior da Bahia. Era difícil acompanhar o futebol feminino. Quando recebi a primeira convocação, em 1988, foi uma surpresa. Não teve protocolo. Chegou uma carta. Fiquei desconfiada, pensando se era verdade.

 

A gente foi disputar o primeiro Mundial Experimental, na China. Sem nenhuma estrutura, na cara e na coragem, e com uniformes masculinos. Foi minha primeira vez com a camisa da seleção, um sonho realizado. A CBF pagou as despesas, mas a gente não recebeu nada. Eu tinha 21 anos, ganhava uma mesada da minha família e recebia jogando futebol de salão.

 

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Acabei me machucando logo antes da primeira Copa do Mundo da Fifa, em 1991. Foi o momento mais triste da minha carreira, mas foquei na recuperação. Minha primeira participação ficou para 1995, na Suécia. Eu já era mais experiente e pude desfrutar, mas muita gente não conseguiu sobreviver jogando futebol no Brasil, infelizmente. Nessa época já lutávamos por respeito e reconhecimento, batendo na tecla da estrutura.O Mundial de 1999 marcou minha carreira. Tive um acidente jogando futsal antes da convocação. Precisava fazer uma cirurgia, mas tive a intuição de que o torneio seria especial. Me apresentei à seleção, escondi a lesão dos médicos e joguei com o rosto fraturado. Hoje, as pessoas veem o futebol como um produto, mas, na nossa época, a gente só queria jogar.

 

Raspar a cabeça foi uma maneira de me expressar — e que foi mal compreendida. As pessoas não entenderam o porquê, achavam que eu queria chocar, criar controvérsia... Esse nunca foi meu intuito. Foi uma promessa para uma criança.No Mundial, fiz gols e comecei a chamar a atenção. Nunca me preocupei com meu jeito de me vestir, e isso incomodou muita gente dentro da CBF. Eles me tiravam das entrevistas, falavam que eu não era bonita o suficiente. Tive que ser muito forte para não deixar que tirassem meu foco. Eu não me encaixava naquele padrão, e não deixei que ninguém me colocasse nele.

 

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Foi um momento triste e delicado. Apenas meus amigos e família sabiam o motivo da promessa. Sofri represálias, perdi muita coisa. Procurei me blindar, mas me afetou emocionalmente. Quando você bate de frente com pessoas que têm poder, fica muito complicado. Talvez por isso eu não tenha sido convocada depois. Acharam que eu estava criando problemas. E quando você vira problema...

 

Fonte: Extra

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