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Morre José Natan Marreiro, guardião da Casa Marreiro e voz poética do sertão de Canindé
Foto: Divulgação

Poeta popular, comerciante e sapateiro, ele transformou um pequeno comércio em símbolo cultural do interior cearense.

Sentado em sua cadeira de balanço, na esquina do mercado de Canindé (CE), José Natan Marreiro costumava declamar versos que resumiam sua própria existência: só sairia dali se fosse arrancado à força. E foi assim que aconteceu. Guardião da Casa Marreiro, um espaço mais próximo de museu do que de comércio, Natan deixou de abrir as portas do local apenas quando a saúde já não permitia.

 

Cego, entristecido e aos 86 anos, ele se recolheu em casa em dezembro do ano passado. Faleceu no dia 17 de janeiro, vítima de parada cardíaca, poucos dias após a morte da irmã Aurora perda que, segundo familiares e amigos, abalou profundamente o poeta.

 

No enterro, no cemitério local, a despedida foi marcada por versos. O poeta Jota Batista prestou homenagem declamando cordel que emocionou os presentes e traduziu o sentimento coletivo de saudade pela partida dos dois irmãos.

 

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Filho de Raimundo Marreiro, fundador da Casa Marreiro em 1937, José Natan herdou três ofícios que carregou por toda a vida: sapateiro, poeta e comerciante singular. Foi o mais longevo dos irmãos na missão de manter vivo o empreendimento da família, que anunciava vender “quase tudo” do sertão o real e o imaginado.

 

Na Casa Marreiro encontravam-se arruelas, malas, jibões, facas lendárias como a “maria-traz-a-vela”, além de folhetos de cordel. O espaço também funcionava como ponto de encontro de pensadores, amigos e romeiros, sempre na companhia de Gilda, boneca artesanal criada por Raimundo, que se tornou símbolo do local.

 

Logo na entrada, um carrossel de madeira eletrificado simulava uma vaquejada, com chocalhos que tilintavam para atrair os peregrinos que visitavam Canindé em devoção a São Francisco. No chão da loja, Natan declamava versos sobre a vida dura do sertão, o alcoolismo, as prostitutas, as estradas inacabadas e suas próprias dores.

 

Após anos lutando contra o vício, conseguiu ficar sóbrio em 1980 e passou a transformar sua experiência no Alcoólicos Anônimos em poesia e testemunho. Um de seus cordéis mais conhecidos, “Eu sou o álcool”, integra hoje o acervo da biblioteca da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.

 

Homem de muitos amores, muitos filhos e intensas contradições, Natan também viveu conflitos, inclusive no campo político, nos últimos anos de vida. Ainda assim, teve a alegria de ver sua obra atravessar gerações. Em 2020, o neto Nathan Marreiro lançou o livro “Saudades do Sertão”, reunindo poemas do avô.

 

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Agora, é o neto quem luta para preservar o acervo da Casa Marreiro e sua memória cultural. Entre os símbolos que permanecem está Gilda, a boneca que, como todos os anos, puxará o bloco “Filhos da Gilda” no Carnaval de Canindé desta vez, em homenagem definitiva ao poeta que transformou uma esquina em eternidade. 

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