O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) anunciou, entre terça e esta quarta-feira (23), a ocupação de diversas sedes regionais do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), incluindo as superintendências de São Paulo, Alagoas e Rio Grande do Sul, como forma de pressionar o governo Lula a acelerar a redistribuição de terras.
A autarquia vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário é responsável pela desapropriação dos imóveis e por administrar as terras públicas da União.
A pauta do MST faz referência à campanha de "soberania nacional" adotada pelo governo federal a partir do "tarifaço" anunciado pelo presidente americano, Donald Trump, aos produtos brasileiros e que levou a ganhos de popularidade do petista.
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Segundo o movimento, a redistribuição de terras seria "uma política fundamental na defesa da soberania nacional, garantindo a defesa das terras do país, em contraposição ao agronegócio entreguista, golpista e antipatriótico".
Em São Paulo, os manifestantes se dirigiram ao prédio público localizado no bairro de Santa Cecília, na região central da cidade, por volta das 7h desta quarta, pouco antes da abertura. Segundo o coordenador do MST no estado, Márcio José, em torno de 300 pessoas estão no local e a tendência é o MST repetir o gesto em 21 sedes da autarquia.
O grupo alega que a reforma agrária "não deslanchou" no país no terceiro mandato de Lula e que o ministro Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário, descumpre promessas.
— Nesses três anos de governo Lula, a pauta da reforma agrária não deslanchou. Há muita justificativa, muita enrolação, muita conversa e pouco resultado prático. Só para você ter uma ideia, aqui no estado de São Paulo não tivemos assentamento de nenhuma família. Apenas resolveu a situação de algumas que já estavam acampadas, mas sem desapropriação de novas terras.
Ele cita como exemplo de problemas urgentes o risco de reintegração de posse do acampamento "Marielle Vive!", instalado em uma fazenda de 130 hectares no município de Valinhos. O imóvel, de propriedade de uma empresa imobiliária que seria destinado à construção de condomínios, foi invadido cerca de um mês depois do assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, em 2018. O MST pede ao governo que compre a terra ou ceda outro espaço, como uma fazenda de 400 hectares do Exército em Campinas, alvo de críticas há 20 anos.
Nesta semana, o MST divulgou uma carta aberta em que cobrava diretamente o atual governo. "Após quase três anos de governo Lula, a reforma agrária continua paralisada e as famílias acampadas e assentadas se perguntam: Lula, cadê a reforma agrária?", declara o documento. "A morosidade do governo, por meio do MDA e do Incra, só aumenta o desânimo e potencializa ainda mais os conflitos sociais". Ainda assim, segundo lideranças, o objetivo não é pedir a demissão do ministro, e sim "celeridade no processo" seja ele ou outro.
O ministério rebateu o conteúdo. "Ao contrário do que diz a carta do MST, a reforma agrária no Brasil retomou o ritmo dos dois primeiros governos do presidente Lula", afirmou em nota.
O governo afirma que foram disponibilizados 13,9 mil novos lotes para assentamentos em 2025, que custaram cerca de R$ 1,1 bilhão para a compra das terras. A meta é criar 30 mil novos lotes ainda este ano e 60 mil até o final de 2026, o que representaria cerca de metade das famílias acampadas atualmente em todo o Brasil, nas contas do governo.
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O MST havia divulgado sete mobilizações até a manhã desta quarta. Em Maceió (AL), por exemplo, 2 mil agricultores sem-terra estariam acampados no Incra. Deputados do PT participaram de audiência em Porto Alegre (RS) no auditório da autarquia, assim como integrantes do MDA. Em outros locais, como Recife (PE), os manifestantes alertaram para os conflitos no campo. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) mapeou 2.185 conflitos no ano passado, o segundo maior número registrado desde 1985.
Fonte: O Globo