Avanços em genética, neurociência e imunologia ajudam a explicar por que a enxaqueca é uma doença complexa, crônica e sistêmica.
A sensação começa de forma estranha: como se houvesse um vazio dentro da cabeça. Aos poucos, esse espaço imaginário se transforma em uma dor contínua, que escorre, pulsa e se instala atrás do olho, avançando até a mandíbula. Quanto mais tempo passa sem tratamento, mais resistente ela se torna. Para milhões de pessoas, essa é a rotina da enxaqueca.
Estima-se que mais de 1,2 bilhão de indivíduos em todo o mundo convivam com o transtorno, hoje considerado a segunda principal causa de incapacidade global. Ainda assim, apesar de sua frequência e impacto, a enxaqueca permanece uma das condições neurológicas menos compreendidas pela ciência.
“Provavelmente é um dos transtornos mais desconhecidos, mesmo dentro da neurologia”, afirma Gregory Dussor, professor de ciências do cérebro da Universidade do Texas, em Dallas.
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UM TRANSTORNO NÃO APENAS UMA DOR DE CABEÇA
Especialistas passaram a evitar o termo “enxaquecas” e adotaram a expressão transtorno de enxaqueca, reforçando que a condição vai muito além da dor de cabeça. Os episódios, chamados de ataques, envolvem um conjunto amplo de sintomas neurológicos e sistêmicos.
A forma episódica ocorre quando o paciente tem menos de 15 crises por mês; acima disso, a condição é classificada como crônica. Náuseas, sensibilidade à luz e ao som, fadiga intensa, alterações de humor, desejos alimentares, bocejos frequentes e dificuldades cognitivas fazem parte do quadro. Cerca de 25% dos pacientes também apresentam auras visuais.
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Foto: Reprodução
ESTIGMA HISTÓRICO E ATRASO NAS PESQUISAS
Durante séculos, a enxaqueca foi tratada como um problema emocional, associado a mulheres consideradas frágeis ou “histéricas”. Apesar de cerca de 75% dos pacientes serem mulheres, esse estigma retardou investimentos e pesquisas científicas.
“Acreditava-se que fosse algo psicológico”, explica Teshamae Monteith, chefe da divisão de cefaleias da Universidade de Miami.
O impacto, no entanto, é concreto. A enxaqueca afeta principalmente adultos em idade produtiva e está associada a afastamentos do trabalho, aposentadorias precoces e altos custos econômicos. Só no Reino Unido, estima-se um gasto anual de bilhões de dólares relacionado à condição.
GATILHOS OU SINAIS PRECOCES
Sono irregular, jejum, estresse, cheiros fortes, certos alimentos e alterações hormonais são frequentemente apontados como gatilhos. Mas pesquisas recentes sugerem que muitos deles podem ser, na verdade, sintomas iniciais do ataque e não sua causa.
“A sensibilidade a cheiros ou à luz pode surgir antes da dor”, explica Peter Goadsby, neurologista do King’s College de Londres. “O paciente passa a perceber estímulos que normalmente ignoraria.”
Estudos com imagens cerebrais mostram que regiões responsáveis pela visão ou pelo olfato ficam hiperativas antes da crise, reforçando a ideia de que algo já está biologicamente em curso.
O PAPEL DA GENÉTICA
A herança genética responde por cerca de 30% a 60% do risco de desenvolver enxaqueca. Estudos com centenas de milhares de pessoas identificaram mais de uma centena de variações genéticas associadas à condição, muitas delas ligadas ao funcionamento dos vasos sanguíneos e a transtornos como depressão e diabetes.
Segundo o geneticista Dale Nyholt, da Universidade de Tecnologia de Queensland, a enxaqueca resulta de uma combinação complexa de genes e fatores ambientais. “Provavelmente existem milhares de variantes envolvidas”, afirma.
SANGUE, CÉREBRO E ELETRICIDADE
Durante muito tempo, acreditou-se que a enxaqueca fosse causada apenas pela dilatação dos vasos sanguíneos. Hoje, essa explicação é considerada insuficiente. Embora os vasos participem do processo, eles não explicam sozinhos a origem do transtorno.
A teoria mais aceita atualmente envolve uma onda elétrica anormal que se espalha lentamente pelo córtex cerebral a chamada depressão cortical alastrante. Essa onda altera a atividade neuronal, libera substâncias inflamatórias e ativa os nervos responsáveis pela dor.
Em 2025, cientistas conseguiram registrar esse fenômeno em tempo real no cérebro de uma paciente, confirmando sua relação com sintomas como aura, sensibilidade à luz e fadiga.
MENINGES E SISTEMA IMUNOLÓGICO
A dor da enxaqueca não se origina diretamente no cérebro, mas nas meninges membranas que o envolvem e no gânglio trigeminal, que conecta o cérebro ao rosto e aos olhos.
Essas estruturas são ricas em células imunológicas e sensores químicos. Quando ativadas, liberam substâncias inflamatórias capazes de intensificar a dor. Isso pode explicar a ligação entre enxaqueca, alergias, alterações hormonais e até a melhora com compressas quentes ou frias.
O AVANÇO DOS TRATAMENTOS
Uma das maiores descobertas recentes envolve o CGRP, um neuromodulador encontrado em níveis elevados em pessoas com enxaqueca. Medicamentos desenvolvidos para bloquear essa substância revolucionaram o tratamento.
Em estudos recentes, até 70% dos pacientes tiveram redução significativa das crises, e quase um quarto ficou completamente livre da dor após um ano de tratamento.
Apesar dos avanços, os cientistas reconhecem que ainda estão longe de compreender totalmente a enxaqueca.
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“Estamos apenas começando a entender o que realmente acontece”, resume Amynah Pradhan, pesquisadora da Universidade Washington. “Existem vários caminhos para a enxaqueca, e cada pessoa pode ter um ‘coquetel’ diferente de fatores.”