Uma das fontes de renda é o murumuru, usado na indústria cosmética
Há cerca de dez anos, quando saíam para colher murumuru (fruto de uma palmeira tropical) na Floresta Amazônica, as mulheres da comunidade São José, no norte da Ilha do Marajó (PA), ouviam de seus maridos e vizinhos a pergunta: "As loucas já vão pro mato?"
Mesmo com as críticas e o preconceito, elas não desistiram e seguiram em frente, como lembra a extrativista Benedita de Oliveira. "Quando nós começamos a trabalhar, foi muito difícil. Muito difícil mesmo. A gente saía para o mato, deixava tudo em casa e, quando chegava, ainda tinha que fazer janta, ajeitar tudo. E nós fomos muito criticadas pelos homens. Só que nós não ligamos... nós continuamos!"
"Quando a fruta do murumuru cai do pé, ela acumula uma em cima da outra, aí ela vai fermentando e cria um mau cheiro, né? Por isso que a gente era chamada por eles de 'mulheres fedorentas', porque eles diziam que aquele mau cheiro entranhava", acrescenta Jesuína Batista Rosa (à esquerda na foto principal).
Veja também

Governo do Amazonas divulga boletim sobre a cheia no estado, neste sábado (31/5)
Fauna monitorada: governo instala câmeras na Região Serrana
Mas, por baixo da polpa "fedorenta", até então consumida apenas como alimento por animais selvagens e de criação, há uma semente muito valorizada pela indústria cosmética. À medida que a renda familiar foi aumentando, os homens foram obrigados a reconhecer e respeitar o trabalho de suas companheiras. Antes disso, nenhuma das mulheres que fazem parte do grupo de extrativistas do Maniva – nome do igarapé do Rio Amazonas que banha a comunidade – tinha renda própria.
A grande maioria delas se casou ainda na adolescência e se dedicava exclusivamente aos cuidados da casa e dos filhos, quando a oportunidade de se tornar extrativista apareceu, por demanda da empresa de cosméticos Natura, em parceria com a Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas (Ataic), outra comunidade do Marajó. Elas também fornecem ucuuba, fruto de uma grande árvore, que também cai depois de maduro e geralmente é retirado da superfície dos rios.
![]()
Foto: Reprodução
Lourdes Batista Silva hoje está afastada da colheita por questões de saúde, mas, além de ser uma das primeira extrativistas do Maniva, também foi responsável por integrar muitas das outras participantes.
"Eu falo de boca cheia que tenho orgulho da minha pessoa. Eu me casei com 15 anos, minha primeira filha eu tive com 16, e eu nunca deixei de trabalhar. Mas, quando a gente começou a vender o murumuru, muita coisa mudou, porque aí eu passei a não depender de homem."
Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no Facebook, Twitter e no Instagram
Entre no nosso Grupo de WhatApp, Canal e Telegram
Benedita também sente o mesmo orgulho: "Nós, mulheres, a gente não era vista, não era reconhecida. Fomos discriminadas, mas agora acabou. Eu até consegui realizar o meu sonho de viajar de avião. Foi a coisa mais incrível do mundo que eu tenho na memória! E agora este ano conseguimos essa casa aqui, né? Cada uma de nós ajudou um pouquinho."
Fonte: G1