Espécie amazônica, que ocorre nos estados do Pará e Maranhão, já está extinta localmente em Belém, sede da COP, e segue pressionada pelo desmatamento, caça e incêndios
Os líderes globais que irão se reunir em novembro em Belém, no Pará, durante a 30ª Conferência das Partes sobre o Clima (COP 30) terão a missão de debater as medidas, acordos e compromissos para enfrentar a crise climática em curso. Junto a isso, ganha cada vez mais espaço a necessidade de trazer à tona outra crise intrinsecamente relacionada: a da perda de biodiversidade. E bate na porta da COP 30 a história de um macaco amazônico, já extinto localmente na capital paraense, e que acaba de ser listado entre os primatas mais ameaçados do mundo.
O protagonista dessa história é o kaapori (Cebus kaapori), macaco que ocorre apenas numa região do leste da Amazônia, nos estados do Pará e Maranhão, sobreposta ao Arco do Desmatamento – zona onde a destruição da floresta avança no ritmo mais acelerado. A caça e incêndios florestais completam a lista dos motivos pelos quais a espécie 100% brasileira foi incluída, pela comunidade primatológica internacional, como um dos 25 primatas mais ameaçados do mundo.
A seleção faz parte da publicação Primates in Peril (Primatas em Perigo) 2025-2027, elaborada pelo Grupo Especialista em Primatas (PSG), da União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN), em conjunto com a Sociedade Internacional de Primatologia (IPS). As discussões finais para determinar quais espécies deveriam entrar na lista foram realizadas na última terça-feira (22), durante o 30º International Primatological Society Congress (Congresso da Sociedade Internacional de Primatologia), realizado em Madagascar.
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“Escolhemos o kaapori porque ele está Criticamente Em Perigo de extinção. É o primata mais ameaçado da Amazônia. E pode ser uma espécie-bandeira para essa região, conhecida como Centro de Endemismo Belém”, aponta o analista ambiental Leandro Jerusalinsky, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB/ICMBio) e vice-presidente do Grupo de Especialistas de Primatas da América Latina pela IUCN.

Pesquisadores estimam que a espécie perdeu mais da metade do seu habitat nas últimas décadas. Mesmo ambientes de florestas degradadas veem as populações do macaco desaparecer. O principal refúgio do primata está na Reserva Biológica do Gurupi e nas Terras Indígenas ao redor, que formam um cinturão de floresta em bom estado de conservação.
A expectativa é que a inclusão do kaapori – um macaco amazônico, brasileiro e paraense – ajude a dar visibilidade à situação alarmante da biodiversidade, em especial no Arco do Desmatamento. Cenário agravado pelas mudanças climáticas e vice-versa.

Fotos: Reprodução
“Não tem como dissociar [clima e biodiversidade]. O desmatamento e as queimadas têm um papel significativo na contribuição da crise climática, liberando na atmosfera o carbono que está fixado na vegetação nativa. Então, quando falamos na conservação de florestas, em especial as tropicais, estamos falando não apenas na conservação da biodiversidade, mas na mitigação das mudanças do clima”, destaca Leandro, que cita ainda o papel fundamental dos primatas na dispersão de sementes, em especial das grandes árvores.
“Não tem como falar das causas das mudanças climáticas sem falar de biodiversidade. E não tem como falar das consequências das mudanças climáticas sem falar de biodiversidade”, resume.O primatólogo ressalta a situação dos bugios-de-manto-mexicanos (Alouatta palliata mexicana), uma subespécie com ocorrência restrita ao México que também acaba de ser listada entre as 25 mais ameaçadas do mundo.
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Em 2024, mais de 150 bugios morreram devido ao calor extremo, numa consequência direta dos impactos da emergência climática. Ao todo, foram selecionadas seis espécies da América Latina, seis da Ásia, sete de Madagascar e outras seis dos demais países da África.
Fonte: O Eco